Nada como um dia após o outro

Por: Greice Scotton Locatelli | 30/08/2019 06:00:43

Marta não compreendia por que a irmã fazia tudo que o filho de 7 anos queria. Até que descobriu que o menino apanhava violentamente do pai e que essa foi a forma que ela encontrou de “amenizar” o sofrimento da criança, já que não tinha coragem de contrariar o marido. 

Aline descobriu que tinha alergia alimentar e sofreu muito com pessoas sugerindo que procurasse tratamento psicológico, porque era “coisa da cabeça dela”. Até uma dessas “opinantes ativas” ser diagnosticada também. 

Mariana só entendeu o quanto a melhor amiga sofria com uma doença de pele quando presenciou uma cena brutal de preconceito contra ela, assim como Carmem, que julgou uma prima que teve depressão pós-parto e se viu diante da mesma situação poucos meses depois.

José Carlos não entendia por que era tão difícil Ana Maria superar o luto depois de perder a melhor amiga em um acidente de carro. Até que alguém da família dele morreu e ele teve dificuldades ainda maiores de passar por essa fase difícil.

Jeferson sofre de transtorno bipolar e passou a vida ouvindo que era “frescura” e “falta do que fazer”. Até que um colega de trabalho – um dos que mais o criticava injustamente – precisou encarar o problema após o diagnóstico da esposa. 
Não foi à toa que alguém criou ditados como “Pimenta nos olhos dos outros é refresco” ou “Nada como um dia após o outro”.

Não importa quando, com quem ou onde situações assim aconteçam, tampouco se são cotidianas ou graves. O fato é que elas ocorrem o tempo todo e é muito fácil julgar estando de fora. “Com a coragem que a distância dá, em outro tempo, em outro lugar, fica mais fácil” cantaram os meninos da banda Engenheiros do Hawaii há muito tempo. 

Só quem passou por algo sabe os impactos emocionais e/ou físicos dessa vivência. E essa falta de empatia (a capacidade de colocar-se no lugar do outro) pode ser uma das explicações para esse sentimento de vazio interior que nos consome – e parece piorar a cada dia, tanto quanto essa necessidade cruel de julgar o tempo todo o que os outros fazem e não olhar para os próprios defeitos. É por isso que tantas pessoas como Carmem, Mariana, Ana Maria, Jeferson, Aline e Marta sofrem, muitas vezes caladas.

Aposto que você mesmo já se sentiu assim: não há nada de errado, nenhum problema grave acontecendo, mas mesmo assim você sente que falta algo, mesmo que muitas vezes você não saiba o que é. É um vazio que nada preenche, uma solidão mesmo estando rodeado de gente, um desespero que os pensamentos só tornam ainda maior. E em condições assim, que afetam todas as pessoas em algum momento da vida, ser julgado torna tudo pior.

Quem sabe a gente possa, um dia de cada vez, mudar esse cenário. Como? Vigiando nossos pensamentos, nossos sentimentos e nossas atitudes e praticando a empatia: será que eu gostaria de estar no lugar daquela pessoa? E se eu estivesse, como me sentiria ao ser julgada sem pudor? Comece hoje, por você mesmo. É assim que a gente muda o mundo e o que está ao nosso redor. 

Nada como sentir na própria pele para aprender a não julgar. Só que quando isso acontece, geralmente o estrago está feito, ou seja, quem foi alvo das críticas já sofreu (ou ainda sofre). Seja de que lado você estiver, isso pode mudar. Hoje. Agora. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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