Sofremos como crianças e fingimos feito adultos

Por: Felipe Sandrin | 30/08/2019 06:00:48

A gente acha que crescer acompanha o amadurecer, mas, definitivamente, para muitas pessoas o crescimento não passa pelo estágio do evoluir. Assim, a maioria de nós incorpora uma casca, uma personalidade a fim de segurar o inconstante que rebate dentro de nós. O que nem percebemos é que essa crosta erguida com a personalidade muitas vezes impossibilita o próprio crescimento, afinal, se você é o que é, como sobraria espaço para ser algo novo?

Escrevo isso, pois fica cada vez mais claro o fato de eu ainda me sentir no mundão do Ensino Fundamental. Mudam as brincadeiras, a forma infantil de reagir, e entra em campo a falsa forma madura. E não me refiro aqui a uma gama pequena de pessoas, somos praticamente todos assim, mesmo aqueles que governam – aliás, os que governam mais ainda – seguem infantilizados em questões muitas vezes não percebidas porque jogamos todos nesse mesmo nível.

Observe o comportamento de governantes, a forma impulsiva como reagem, como crianças em uma aula de educação física sem professor, como turmas de bairro. O dono da bola, o garoto mais velho, a menina mais bonita e vaidosa. Tudo se repete lá em cima, no mundo dos adultos. Falamos de ego como se esses fossem sólidos, mas por vezes fica claro que o próprio ego não conseguiu germinar, segue preso ao superficial de alguém que, na pressa de crescer, encarcerou a possibilidade desse crescimento.

Compare os adultos à sua volta, veja como essas pessoas reagem e pense: por vezes você não sente como se ainda estivesse na escola? Ficamos ótimos em dar conselhos, as palavras ficam mais articuladas, aprendemos a disfarçar melhor sentimentos, mas quanto realmente mudamos em nosso sentir se compararmos com a criança que éramos há alguns anos?

Esbarro com pessoas assim o tempo todo: choram em relacionamentos terríveis, mas não conseguem sair disso. Lamentam empregos sem perspectiva, mas não fazem nada mais produtivo nas horas que restam. Usam finais de semana para se divertir, mas no domingo à noite sentem como se não tivessem encontrado um sentido para tudo aquilo.

Olhe para uma mulher de 40 anos que vive com um traste em casa, uma adulta por fora, mas por dentro um ser tão infantil quanto era aquela garotinha que sonhava com príncipes aos 13. Olhe para um homem maduro de 50 anos, tomando cerveja com seus amigos num posto de gasolina. Observe-os e diga: o que os distingue dos jovens transtornados de 16?

Empregos e cartões de crédito. Contas por pagar, um carro no estacionamento para levar as compras do jantar. Toda essa rotina nos faz adultos? Então, teoricamente, teríamos muitos adultos no mundo. Não, não somos tão maduros quanto fingimos ser, não somos nem metade fortes do que queremos parecer. Os mesmos problemas de sempre, a mesma dificuldade em conviver com sentimentos quase triviais. O mundo dos adultos é claramente uma extensão de toda infantilidade da qual um dia fingimos nos afastar.

Brinquedos mais caros, salto alto, carros mais potentes. O inferno na terra surge como um compromisso intransferível, mas o que deu errado? Bem, talvez tenhamos fingido crescer e, na ânsia por entender que a vida é feita de sofrimento, não conseguimos admitir a nós mesmos a criancinha mimada que ainda comanda a maior parte dos nossos sentimentos.

Se crescer e ser adulto é difícil, então não é de se estranhar que a maioria das pessoas nunca de fato cresça. Muda o tabuleiro, mas o jogo continua o mesmo. Achamos que o mundo adulto se faz presente diante do poder das escolhas, da independência, mas na verdade o que nos rodeia nesse falso mundo são os mesmos problemas de quando éramos crianças, a diferença é que agora podemos simplesmente não resolver nada. A armadura que criamos com a vida nos permite isso: sofrer como crianças e fingirmos como adultos.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 736
14/11/2019 06:00:47
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA