Expectativas e estabilidade

Por: Greice Scotton Locatelli | 09/06/2019 06:00:39

Eu sempre me considerei uma pessoa “otimista com restrições”. Eu confio que vai dar certo, mas me preparo para o pior. Afinal, a frustração tende a potencializar a dor. Há quem diga que isso nada mais é do que um pessimismo enrustido. Pode ser. Mas ainda assim mantenho a minha convicção.

Há aqueles, no entanto, que não vivem sem o radicalismo: ou são otimistas demais, de uma forma quase utópica, ou são melancólicos e negativos ao extremo, do tipo “tudo está errado o tempo todo e eu sou a pessoa mais azarada do planeta”.
Para mim, equilíbrio e estabilidade são fundamentais e o segredo para sobreviver nesse planeta onde, sem dúvida, a missão mais difícil é a de conviver com outros seres humanos, cada qual com suas qualidades e defeitos. Um mínimo de estabilidade é indispensável para mim, uma ansiosa crônica – eu definitivamente não sei viver sem ter um “norte” de planejamento, mesmo que tudo dê errado lá na frente.

Mas, embora pareça, estabilidade não tem nada a ver com rotina, pelo menos não no meu caso. Aliás, se tem uma palavra que nem de longe define o que é o dia a dia de um jornalista é “estabilidade”. Cada dia é um e imprevistos acontecem o tempo todo, obrigando-nos a buscar sempre um equilíbrio entre a vida profissional e pessoal – e às vezes isso é praticamente impossível: você está no chá de fraldas de uma amiga e é chamado para cobrir um assassinato. Está tomando um chimarrão com a sua vó e um acidente acontece. Ligam de última hora para convocar uma entrevista coletiva em que um político renuncia ao cargo e você, que já tinha cumprido o seu horário de trabalho, precisa voltar correndo. Uma rebelião no presídio obriga uma suspensão de toda a sua agenda por algumas horas. Você dormiu duas horas e o telefone toca e traz com ele a insônia. E assim vai...

Tédio definitivamente é algo raro para quem escolheu o jornalismo como profissão e os efeitos desse “imprevisto permanente” talvez expliquem por que de tempos em tempos surgem minicrises de consciência. “Será que vale a pena?” “Até quando vou aguentar essa ‘rotina sem rotina’?” “E se a pessoa com quem eu convivo não aceitar?” “Será que um dia o aspecto financeiro vai compensar?”. São muitas perguntas e nenhuma resposta, ironicamente.

Como jornalista, percebo que equilíbrio e estabilidade são importantíssimos quando decisões que envolvem muitas pessoas são tomadas. Não dá para ficar mudando de ideia o tempo todo. Hoje vale, amanhã não vale mais, depois de amanhã quem sabe. Tem sido assim nos últimos anos: cada novo governante muda pontualmente algo conforme as próprias convicções. Bacana e necessário, desde que seja feito com argumento e não apenas “achismos” ou desejos pessoais. 

Um prefeito acha que uma determinada rua precisa ter mão única. Vai lá e muda tudo. Entra o prefeito seguinte e pensa o contrário: ordena que se desfaça a mudança. Um governador entende que multar é importante: manda intensificar as ações de modo generalizado. Entra o sucessor, que acha desnecessário, e cancela tudo que o antigo ocupante do cargo fez. Um presidente quer incentivar o emprego e toma medidas radicais para aquecer a economia e abrir mais vagas. O seguinte quer aumentar impostos e toma decisões que provocam desemprego em massa. Isso quando essas mudanças não ocorrem com diferença de dias, e não de anos.

Gente, devagar! Mudanças são necessárias, sim, ainda mais neste país continental em que vivemos, onde muita coisa passou tempo demais engessada. Mas estamos falando de dinheiro público e de impacto na vida de todos. De novo: é preciso que as medidas tenham argumento técnico para que nem os otimistas fiquem entusiasmados demais e nem os pessimistas se deprimam à toa. Bom senso – isso já seria o suficiente.
  
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 736
14/11/2019 06:00:47
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA