Só por hoje

Por: Greice Scotton Locatelli | 13/09/2019 06:40:03

Em uma daquelas semanas em que tudo parece dar errado, quando os ponteiros do relógio parecem correr rápido demais e os afazeres se acumulam, recebo um senhor de meia-idade, com um semblante que me é familiar. Ele pede ajuda do jornal para divulgar um evento. Tudo normal, exceto algo que me incomodava. Uma sensação, quase um pressentimento, de que eu precisava fazer algo a mais e que não importava o quão corrida a rotina estivesse: aquela era a hora. E se tem algo que eu aprendi a respeitar ao longo dessas duas décadas de carreira é a minha intuição.

O papel social do jornalismo vai muito além de ajudar a divulgar causas beneficentes, entidades ou pessoas que buscam auxílio. Nossa missão, enquanto comunicadores, é cativar o leitor para que ele não apenas leia um texto, mas de alguma forma possa se identificar com o que está escrito. Costumo dizer que se uma única pessoa tiver a vida impactada por algo que eu escrevi, terá sido uma grande vitória. Mas, na verdade, admito, eu quero muito mais. Como editora, eu quero que cada um dos 10.000 exemplares do SERRANOSSA que circulam a cada sexta-feira faça a diferença na vida de cada leitor, mesmo que de maneira singela. Eu sei que estamos em um país no qual a leitura está anos-luz de ser unanimidade e tenho consciência de que muitos dos jornais que tanto nos empenhamos para produzir no fim servem apenas como banheiro para o gato ou o cachorro ou como “tapete” de carro. Mas isso não nos desmotiva: faz com que nos dediquemos ainda mais para que aquele leitor que sabe valorizar um texto bem escrito, uma reportagem bem apurada e veículo de credibilidade tenha a melhor versão do que pudermos oferecer.

A reportagem da série especial “Vida de...” desta semana (clique para acessar) é uma dessas matérias capazes de marcar profundamente – quem a escreveu e quem a lerá. Nas três entrevistas, eu pude ter a certeza de que há muita gente boa por aí, que luta de corpo e alma para ficar bem, apesar de todas as adversidades. Pessoas que enfrentam desafios, tristezas e percalços como todos nós, com maior ou menor gravidade, mas que entenderam, depois de muito sofrimento, que tudo passa.

Eu preferia que fossem histórias inventadas, tamanha tristeza, mas não são: os depoimentos são revestidos da mais pura realidade e foram contados com a lucidez de pessoas que hoje sabem o valor que viver “um dia de cada vez” tem.
As lições desses três alcoólicos anônimos são valiosas não apenas para pessoas que sofrem em função da dependência psicológica de alguma substância. São ensinamentos que deveriam servir para todos: só por hoje eu não vou beber. Só por hoje eu não vou reclamar. Só por hoje vou dar prioridade a mim mesma. Só por hoje vou cuidar da minha saúde. Só por hoje vou ser feliz. 

Na última terça-feira, eu completei 9 anos de SERRANOSSA: desde o dia 10 de setembro de 2010 eu me dedico todos os dias para contar histórias da vida real e fazer a minha parte para tornar este mundo um pouquinho melhor. A experiência de poder ouvir e escrever relatos como os dos personagens anônimos da série “Vida de...” desta semana não foi apenas um presente simbólico para marcar essa data. Serviu como inspiração e motivação para continuar trabalhando, dia após dia, para mudar o mundo. Um trabalho de formiguinha o qual nunca poderei mensurar com exatidão, mas que certamente continuará sendo motivo de muito orgulho para mim – estou fazendo a minha parte.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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