Só deixe as crianças serem crianças

Por: Felipe Sandrin | 13/09/2019 06:40:22

Eu sou da geração que todos se reuniam em frente à TV no domingo para assistir à “Banheira do Gugu”. Para quem não sabe, essa era uma das atrações mais assistidas na década de 90. Um homem e uma mulher dentro de uma banheira, um tentando pegar sabonetes e o outro tentando impedir. Seios à mostra, bundas que fugiam dos biquínis. Após essa grande atração, uma banda surgia no palco cantando algo tipo “olha piu piu ô, pirulito. Quem já chupou vai chupar mais”. Assim eram os domingos da minha geração.

Hoje eu pertenço à geração que mais tira a própria vida. A geração que mais consome remédios e que mais tem problemas para dormir. Uma geração frustrada, que vive entre o estímulo de sonhar grande e não saber propriamente com o que sonhar. Uma geração que consome para preencher buracos, buracos esses que parecem cada vez maiores, buracos tão grandes que agora passam a sugar os próprios filhos.

E você, de que geração é? Com quantos anos você está agora? 30, 40, 50? Pergunto: como estão seus amigos? Como vai seu casamento? Você é um marido fiel ou uma esposa feliz? É saudável mentalmente a ponto de seu próprio corpo se mostrar longevo e conservado?

Diga-me: quantas pessoas você conhece totalmente quebradas por dentro? Frustradas em relações e nas expectativas quanto ao que teriam em suas vidas e que hoje apenas recordam como um sonho nublado e distante?
Eu tenho certeza que você entende sobre como é difícil esse lance de viver e se relacionar. Paixão, amor, sexo. Tudo pode se tornar tão frustrante que não é difícil em cada esquina encontrar homens e mulheres maduros, mas que se tornaram amargurados e até infantilizados em suas frágeis teias de relacionamentos.

Quando vejo essa massiva estimulação da sexualidade das crianças, quando vejo adultos compactuando com o mergulho dos pequenos nesse mundo complicado e complexo das relações, quando me deparo com isso, fica evidente o porquê desses assustadores números que hoje vivenciamos. Nunca antes as crianças foram tão assediadas, tão disputadas por ideologias, tão estimuladas a verem corpo e sexo como se fossem obrigadas a logo fazerem alguma escolha.

Famílias dilaceradas. O trabalho de mais de duas décadas de grandes emissoras de TV deu resultado. Assim se tornaram as famílias: uma aglomeração de indivíduos falsos, traidores, mesquinhos e interesseiros. Tudo é sexo ou dinheiro, mentira e perversidade. É claro que as pessoas da minha geração – e provavelmente a sua também – aprenderiam a repudiar a família, aprenderiam a desconfiar e estarem sempre prontos para ir embora. Sim, esses somos nós: prontos para ir embora se as nossas expectativas não forem satisfeitas.

Velhos aos 30 anos, com corações quebrados. Homens e mulheres que aos 40 somam tantas frustrações que preferem o encolhimento dentro de uma casca de traumas.

É esse o mundo que alguns insistem em dar às crianças: um mundo com o qual nem os adultos sabem lidar é oferecido na internet, em canais de TV e em qualquer coisa que uma criança possa consumir.

Os números não mentem: não é coincidência tanta gente doente. Alimente a mente de uma criança com sementes de um mundo já contaminado e teremos em breve mais algumas gerações e seus frascos com remédios que tentam curar essa tal tristeza sem rosto.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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