O clima. Sempre o clima

Por: Greice Scotton Locatelli | 19/09/2019 06:00:55

Quando eu era criança, minha mãe tinha um hábito de organização: duas vezes por ano, as roupas eram trocadas de lugar. Cobertas, casacos, agasalhos ou peças mais pesadas eram lavadas e guardadas nas prateleiras mais altas, mais difíceis de acessar. O mesmo acontecia com os itens de verão, mais leves. Você consegue se imaginar fazendo isso hoje em dia? 

Não é um hábito difícil, mas a instabilidade do clima inviabiliza essa separação. Em pleno inverno, temperaturas acima dos 30°C em um dia, na semana seguinte 0°C. Não tem saúde (nem rotina de organização) que aguente tanta variação em períodos tão curtos de tempo.

Uns dirão que é culpa do aquecimento global, outros do desmatamento, alguns farão acusações de cunho político. Mas a verdade é que a humanidade sabe muito pouco sobre o planeta no qual vive e que destrói dia após dia. Temos teses para tudo, mas pouquíssimas certezas efetivas. Ou você acha que se já tivessem descoberto certas coisas ainda estaríamos nos achismos e teorias que se desfazem tão rápido quanto o giro de uma ampulheta?

Certas crenças defendem que estamos neste planeta para aprender a sermos melhores. Outras pregam que a vida começa e termina aqui. O fato é que, independentemente daquilo em que você acredita, somos insignificantes perante o universo e estamos a anos-luz de sermos civilizados efetivamente. Ou vai dizer que, em curto prazo, ainda há esperança em um mundo onde algumas pessoas jogam lixo no chão ou não separam sequer os resíduos que produzem em casa, por desconhecimento, descaso ou simples preguiça?

A chave para virar esse jogo está nas crianças, mas eis que surge outro dilema: como vamos educá-las sem dar o exemplo? Já tentou fazer uma criança comer frutas com você comendo uma fatia de bolo? Não digo que não dê certo, mas é improvável.

De nada adianta escolas preocupadas com a questão ambiental usarem o assunto como parte do aprendizado se ao chegar em casa o mesmo aluno que em sala de aula aprendeu que se deve separar lixo orgânico do reciclável não vir seus pais fazendo essa separação. De nada adianta bradar nas redes sociais contra crimes ambientais e na vida real ser um cidadão que mal consegue respeitar regras básicas de convivência em sociedade como não jogar lixo no chão. 

De idealistas inflamados de Facebook o mundo está cheio. O que falta são pessoas que façam mais e alardeiem menos. Que realmente façam a diferença por um mundo melhor, mesmo que no bom e velho trabalho de formiguinha. Que tenham noção do quão nociva e supérflua a humanidade se tornou quando o assunto é preservação ambiental.

A gente tem essa mania de pensar que tudo é eterno, que para tudo podemos dar um jeito. E esse é o primeiro passo rumo ao abismo. Afinal, estamos em um planeta com recursos limitados, em vias de extinção. O que você vai fazer quando tiver que implorar por umas gotas de água tendo vivido toda sua existência com água à vontade. Eu sei que soa radical, mas costumo pensar em como as coisas seriam se o nosso modelo atual de vida desaparecesse. E o prognóstico não é nem de longe alentador.

Não há escolha se não nos conscientizarmos de que cabe a cada um de nós fazer a sua parte: seja consumido de forma consciente, seja dando o exemplo para as próximas gerações. Afinal, se em 30 anos o cenário ambiental se degradou de tal forma que sequer as estações do ano são definidas corretamente, como estaremos daqui a 100? Pense nisso e, acima de tudo, faça o que puder. Hoje.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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