Onde estavam os estudantes nos últimos 12 anos?

Por: Felipe Sandrin | 27/10/2016 00:00:00

Foram 12 anos de silêncio. Foram 12 anos de uma educação degradada, de escolas destruídas, ensino precário e professores abandonados a coragem e determinação. Foram 12 anos jogados ao lixo, comendo o pão que o diabo amassou, mais ainda assim, doze anos bem aguentados no lombo. A criançada é forte, aguentou firme, mas aí bastou cair o PT e adivinhem? A criançada fecha escolas, sai às ruas e vai para frente da prefeitura. Sob que argumento? ‘Melhorar a educação no Brasil’. Foram 12 anos para gritar e nada se deu além de silêncio.
Vemos as crianças aí, reivindicando, invadindo e protestando, mas claro que não são esses jovens que realmente aí estão, quem os representa são alguns professores, o que há de pior no submundo da educação. Posso escrever isso com convicção, sabem por quê? Porque 12 anos atrás eu me juntava a essas mentes esponjosas que buscam ser revolucionárias. Eu era um desses caras revoltadinhos, criado a pensamentos estúpidos geralmente emanados por meia-dúzia de professores ressentidos que veem como sentido para o mundo tirar e distribuir – claro, desde que não se tire deles próprios.
Amo professores, para mim não há profissão mais digna, muitos de meus professores sabem que falo isso com o coração, muitos desses foram também os que me salvaram daqueles que tinham por objetivo criar idiotas. Quase nada mudou desde que saí da escola, também posso dizer isso com certeza, pois estive em mais de 50 escolas nos últimos 24 meses. Pergunto aos professores também revoltadinhos que lerem esse texto: em quantas escolas vocês estiveram nos últimos 24 meses?
Aos alunos que trancam escolas, que buscam se sentir os revolucionários, acreditem: um dia vocês olharão com vergonha ao passado, aos idiotas que eram. Falo isso como servo de minha própria experiência de vida, como o idiota de ontem.
Somos alvos fáceis dentro da escola, um aglomerado de débeis desesperados esperando a luz, mesmo que muitos não respeitem os professores, ainda assim esse é o contato adulto mais profundo que a maioria tem. Tão fácil manipular as pobres cabecinhas, tão fácil dizer: vão lá, falem da PEC, digam que é uma luta pela educação. Assumam o poder, reivindiquem a escola, agridam se preciso for. Sejam o que nós, professores, não podemos ser. E assim basta um único péssimo professor para se influenciar tantos. Jovens, dê a eles qualquer coisa que os faça gastar energia e eles vão gritar, ameaçar e agir como robozinhos de corda.
Foram 12 anos de penúria, de uma educação vergonhosa e só agora surgem os alunos salvadores do Brasil. Demonstração clara de que educação começa em casa, de que se os pais não derem uns tapas na bunda, não adianta mandar o filho para a escola, pois receberá de volta algo ainda pior.
Essa parece ser a melhor crise que o Brasil já viveu. É impressionante quantos espelhos vêm se quebrando nos últimos meses, quantas máscaras vêm caindo e quanto está ficando evidente onde deve haver as maiores mudanças.
Temos uma legião de covardes neste país, gente disposta a se vitimizar para causar dano a tudo que não lhes convenha.
Os gritos já não fazem efeito, o barulho não mais assusta. Greves? Acusações? Discursos vitimistas e mentirosos? Vem chegando ao fim a era dos falsos coitadinhos. A hipocrisia de ‘lutar pelo outro’ já não cola mais. Está claro: quem mais grita é quem menos faz.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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