Amor de dinda

Por: Greice Scotton Locatelli | 27/09/2019 06:00:13

Esperando meu afilhado na saída da escola, acompanho a movimentação do que imagino serem pais, mães, avós, dindos, tios ou babás. Como uma apaixonada por observar a vida, analiso os rostinhos dos pequenos, que parecem alegres e ativos, com uma energia que bem poderia ser contagiosa, de tão gostosa de ver. O semblante da maioria dos adultos mescla felicidade e apreensão. Alguns, visivelmente apressados, tentam (em vão) impor o mesmo ritmo aos filhos, que dificilmente se adaptam sem resistência. Outros parecem conseguir, mesmo que por uns míseros minutos, separar a rotina agitada que vivem e se dedicar de corpo e alma àquele momento. Há, ainda, os indiferentes ou os que parecem não reconhecer aquela como sendo a própria vida, mas esses são uma minoria. A maior parte se mostra feliz com aquela responsabilidade, como se aquele instante fosse um respiro antes de voltar para o mar da vida. 

E os pequenos? Bem, são raros os que não estão falando (muito e rápido), como se soubessem que aquele momento também será passageiro, como um sopro. Para certas crianças acho que nem é preciso um incentivo como aquela tradicional pergunta “como foi na escola hoje?”. Eles (e em “eles” incluo o meu afilhado, Lorenzo [risos]) começam a falar no momento em que veem o familiar e desatam a emendar frases quase sem pausa para respirar, sobre os mais diversos assuntos, mas com aquele tom de voz típico de quem está eufórico. E essa, pelo menos para mim, é a hora em que o desafio é maior: a nossa cabeça, adulta, cheia de preocupações, precisa se concentrar em acompanhar o monólogo. Ao mesmo tempo, é a melhor hora do dia, porque é quando a gente percebe o quanto (e quão rápido) eles crescem e como vão se virando nesse mundão afora. Eu me divirto ouvindo os “graves dilemas” e relacionando aos mesmos que vivi no tempo de escola. Às vezes, quando o Lorenzo faz uma pausa para tomar fôlego, eu tento amenizar: vai passar, você vai sobreviver. E daqui a uns anos, vai rir de tudo isso.

Em momentos assim, eu penso no tamanho da nossa responsabilidade, afinal, cabe a nós, os “grandes”, ajudar a lapidar esses pequenos diamantes, minimizando seus tropeços e enaltecendo suas pequenas conquistas – não importa quão atarefados ou estressados estamos. Eis a mágica da vida: saber equilibrar.
Observando tantos pais que vem e vão, torna-se inevitável o questionamento: quantos desses que levam os seus pela mão ou carregam sua mochila conseguem, entre tantas funções e a correria da rotina, autoavaliar seu próprio desempenho no papel mais importante das suas vidas? Será que eles realmente se tornaram pai/mãe ou apenas tiveram um filho? Sim, porque ter um filho é muito diferente de se tornar um pai ou uma mãe de verdade. Conheço gente (eu inclusive) que ainda não tem filhos, mas que consegue se dedicar muito a quem lhe é querido, um amor que, embora diferente daquele incondicional que uma gestação proporciona, pode se tornar tão grande quanto. Assim como conheço quem é pai ou mãe, mas não conseguiu se realizar ou se identificar com isso e encara tudo como uma perda de tempo ou um sacrifício. Há outros, porém, que sonham com uma família enorme e com aquela bagunça gostosa típica de várias crianças correndo pela casa.

Cada história, cada criança e cada experiência são únicas. Os dilemas até podem ser comuns de vez em quando, assim como as expectativas e as frustrações, mas isso não torna esses pequenos seres iguais em essência, ao contrário. 
Enquanto eu espero meu afilhado na saída da escola, lembro de quando ele era pequeno, aquelas mãozinhas redondas e o sorriso desdentado, carregando uma mochila quase maior que ele e saindo pela mesma porta. Dá uma saudade e ao mesmo tempo uma alegria. Saudade porque ele cresceu (rápido demais!), mas alegria porque sei que, como dinda, eu aproveitei e me dediquei ao máximo a cada minuto. Aliás, sigo fazendo isso até hoje, mesmo que agora, no alto de seus 12 anos, a frase favorita do Lorenzo seja “isso é coisa de criança, dinda”. 
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 731
10/11/2019 08:00:55
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA