Sequestro algorítmico

Por: Felipe Sandrin | 27/09/2019 06:00:45

Rodo pelo aplicativo do Instagram em busca de algo que me distraia, vejo o vídeo de um peixe sendo preparado na grelha e, é claro, que dou a ele o famoso coraçãozinho do curtir. Na sequência surge um prato elaborado com cortes nobres, mais uma curtida para aquela suculenta e bem preparada carne. Paro por aí, nada demais, vida que segue: nada disso, o algoritmo tem outros planos para mim.
No dia seguinte, logo pela manhã, entro novamente em meu Instagram e lá estão: vídeos e fotos de deliciosos pratos. Pela primeira vez em minha vida sinto fome ao acordar: sim, eu estava pego pela brilhante armadilha desenvolvida para as redes sociais, meu breve interesse criou uma oferta infindável que me mergulhou definitivamente em um comportamento até então inimaginado.

Vivemos em tempos de informações ilimitadas. Nossa incapacidade de frear o que aparentemente é nos dado de graça faz com que vivamos mergulhados na superfície de assuntos os quais nem sabemos se realmente nos interessam.

Você está entediado e durante a noite assiste a um vídeo de política, no dia seguinte lá estão mais e mais desses vídeos: sem nem perceber você começa a mergulhar em uma guerra de opiniões superficiais.

Um gatinho que late como um cão surge na tela do seu celular, você ri, curte e compartilha. Logo um cãozinho surge andando de bicicleta, uma tartaruga caminha com um papagaio sobre ela, um porquinho dorme ao lado de uma onça-pintada. Lá está o reino da fauna e flora no seu celular, lindas imagens que não param de chegar e dali por diante sua rede social será composta basicamente por esses animais fofinhos.

Lembra quando você era menor e se ficava muito tempo dentro de casa sua mãe te mandava para a rua fazer algo? E quando você ficava muito na rua e sua mãe surgia gritando seu nome e te fazendo passar vergonha por nunca estar em casa? Assim – sem saber – aprendíamos sobre o equilíbrio necessário a vida. Nem muito de frente à TV, nem muito na rua com amigos. Bem, não há uma “mãe” em nossas redes sociais. Se você ama comida seus aplicativos vão girar em torno daquilo, as ofertas comerciais que você receberá serão relacionadas aquilo.

O mundo de polaridade o qual vem se criando não nasce das diferenças, pois diferenças sempre tivemos, o que define os polos são as obsessões. Definitivamente estamos obcecados. Se você antes gostava de futebol, agora você distribui mensagens quando o time do outro perde. Se antes você acompanhava um pouco de política, agora você odeia o outro lado. Se antes você queria aprender a cozinhar, agora você fica com fome de madrugada ao ver vídeos de tortas de brigadeiro com morango sendo feitas numa padaria italiana.
E se enganam aqueles que pensam serem os jovens as únicas vítimas disso, afinal, quantos adultos você conhece que caíram de paraquedas na internet e hoje parecem metralhadoras que comentam e compartilham tudo que recebem?

Nosso processo de digestão cerebral parece não estar se adaptando a esse novo mundo de fartura informativa. Por que estamos cada vez mais doentes de sentimentos e mais frágeis emocionalmente? É bom começarmos a buscar essas respostas... mas não no Google. As pessoas precisam parar de olhar para fora a fim de responder sobre o que está lá dentro.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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