Doenças modernas

Por: Felipe Sandrin | 10/04/2019 06:00:51

Não há doenças novas, o que provavelmente ocorra seja a fragilidade de nossos sistemas mentais.  Por quantas vezes você sentou com alguém e diante dos problemas apresentados por aquela pessoa você a relacionou a manifestações sintomáticas de uma depressão? Funcionamos assim com outros, funcionamos assim com nós mesmos: o interno se difunde no externo.

“Tá, Felipe, mas qual é a ideia do texto?”. A ideia é a seguinte: tirando patologias graves, a imensa maioria dos “problemas emocionais” que as pessoas acham ter na verdade são nada menos do que aquilo que acompanham TODOS nós.

Você está com dificuldade para dormir? Com dificuldades de achar alegria no seu trabalho? Se sente para baixo já quando acorda pela manhã junto ao seu despertador? Acha que nunca encontrará o verdadeiro amor? Pois então deixe lhe dizer que: estranho seria você não se sentir assim. “Ah, mas as pessoas a minha volta estão tão bem”. Aham, vai nessa. Presta atenção numa coisa: vender aos outros uma vida perfeita está na moda. Você precisa parar de acreditar no que vê na TV e nas redes sociais, mas mais do que isso: você precisa entender que esses sentimentos que lhe atormentam estão desde sempre entre nós, todos nós.

O que seria de nós se 200 anos atrás diagnosticássemos os grandes pintores, músicos e poetas como depressivos, tristes, solitários e potenciais suicidas? O que seríamos hoje? O que teríamos de legado se os grandes idealizadores humanos tivessem se olhado no espelho e diagnosticado a natureza de suas emoções como doenças a serem eliminadas?

Na tentativa de conter as expressões, vemos diariamente o brilho do ser humano se perder diante do não natural da obsessiva alegria. Passamos a tratar o velho gene que nos acompanha através de uma lente moderna feita para encontrar, diagnosticar e renomear velhos companheiros como se fossem problemas modernos a serem eliminados.

A possibilidade de saber-se o que não se sabia e evitar o que não se conhecia acabou nos criando uma irresponsável ideia dos problemas novos. Sentir-se triste, questionar-se sobre a forma que conduzimos nossa vida, não entender a imensidão vazia que por vezes nos suga, tudo isso que sempre nos acompanhou e fomentou grandes feitos, hoje é visto como algo a ser combatido, uma genética defeituosa que nos torna piores do que poderíamos ser.

Na era das máquinas, nos esquecemos de ser orgânicos, tratamos processos básicos como coisas a serem sofisticadas e substituídas. Logo, o que era passageiro se tornou motorista. As emoções que comandávamos sem precisar darmos ordens passaram a ser dissecadas como fórmulas mutáveis: nasceu assim o monstro que nos retira da normalidade e joga a exclusividade.
Sendo cada um de nós seres únicos, únicos também seriam nossos dilemas e sensações. A dor passou a ser individualizada e, claro, passou a ser dona do próprio crescimento diante de cada ser único o qual ela habita.

Assim nos desconectamos da realidade de que todos passam por processos parecidos e o que nos difere são as reações.
Não, tudo aquilo que lhe aflige não é a diagnose de um problema, isso tudo sempre esteve ali, em você, em todos nós. Não há doenças psicológicas modernas, mas uma fraqueza diante de um ser humano que desconhece sua própria natureza e, na imensidão de sentir-se único, acaba por unicamente sentir-se só. 
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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