Resiliente: conhecer a palavra não nos faz mais fortes

Por: Felipe Sandrin | 10/11/2019 06:00:24

E se você fosse demitido agora, se a sua empresa quebrasse, se você perdesse sua estabilidade salarial, como você reagiria? Bem, caso você às vezes pense nessas possibilidades ou se evita pensar justamente pelo pavor que isso lhe causa, tenho que lhe advertir sobre sua perigosa fragilidade.

Sugiro que você se questione então sobre onde moram suas dependências. Você é mulher e depende de sua relação para ter uma estabilidade material? Você é um homem que trabalha no setor público e vive com medo de seu salário não chegar? Qual o seu nível de dependência atual em seu trabalho e quais seriam suas chances caso tivesse de recomeçar em algo novo?

Muitas pessoas evitam pensar em coisas assim, pois a simples ideia da perda de alguns pilares causa tamanho mal-estar que elas sufocam tais pensamentos. Sendo assim, pergunto: quem tem mais chances de sobrevivência? Um executivo que diariamente lida com desafios burocráticos para manter uma empresa respirando ou sua secretária que passa o dia apenas atendendo telefonemas e arrumando papéis? Quem é mais frágil: uma gerente que coordena grupos de diferentes pessoas e tenta potencializá-las ou um funcionário público que exerce aquela mesma função há 30 anos?

As pessoas acreditam que a estabilidade traz segurança, mas de que estabilidade estamos falando? Daquela que joga você em um emprego por décadas e lhe faz unicamente apta para aquela função? Pois saiba que essas são as pessoas mais expostas ao risco.

As dificuldades nas relações, a exigência dos mercados, a pequena instabilidade diária com a qual precisamos lidar, são essas pequenas flutuações que nos torna aptos e prontos para suportar impactos. Muitas pessoas acreditam que a possibilidade de um salário fixo e fundos de garantia são sinônimo de uma tranquilidade emocional, mas é exatamente nesses casos e para essas pessoas que as rupturas se provam ainda mais devastadores: uma vida de segurança fragiliza toda a estrutura que logo colapsa diante da primeira pancada.
Vivemos tempos em que os pais trabalham duro para que seus filhos não passem pelas mesmas dificuldades pelas quais eles passaram. Assim, sem perceber, esses pais privam seus filhos da maior qualidade que eles próprios adquiriram: a “antifragilidade”.

Esse conceito amplamente estudado por Nassim Nicholas Taleb demonstra como, década após década, seguimos a nos fragilizarmos diante de uma falsa e devastadora segurança. Sobre a nossa natural maleabilidade criamos uma crosta protecionista a qual nos torna ainda mais inseguros e inaptos para o atual ambiente de constantes e abruptas mudanças. Tempos voláteis para seres rigidamente fragilizados.
Da segurança criamos a cegueira, uma dependência que não permite a volatilidade da vida. Quase não há espaço para manobras e qualquer pequena mudança em nossas rotinas cria uma onda de caos que expõe nossas rachaduras. O que era para ser um passeio tranquilo e seguro tornou-se um terror de noites mal dormidas.

E assim, na busca por um mundo repleto de estabilidade, criamos a geração mais frágil que a história já conheceu e que as medicações já registraram. Se quisermos recuperar um pouco de nossa força, precisamos parar de andar sobre o gelo fino fingindo que estamos firmes. Nós mesmos nos privamos das pequenas instabilidades e agora vivemos com medo do invisível que na sombra do amanhã habita.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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