Meia ausência basta

Por: Greice Scotton Locatelli | 18/10/2019 06:00:13

Certa vez uma grande amiga teve um colapso nervoso. Depois de crises recorrentes e graves de ansiedade que abalaram seu emocional e de pensar ter sofrido um infarto, ela decidiu que precisava de um tempo. Pediu folga do trabalho e durante 96 horas ficou “off”. 
“Volto quando me encontrar”, pensou. E foi o que fez. 

Em meio à solidão e ao silêncio que só a natureza consegue propiciar, minha amiga sentiu a energia única do nascer e do por-do-sol, viu centenas de estrelas na escura madrugada longe da claridade tipicamente urbana. Respirou, simplesmente. E naquele longínquo paraíso, ouviu algo que há muito não ouvia: os próprios sentimentos. Não havia sinal de celular, muito menos de internet. E justamente por isso a imersão que ela fez nos próprios sentimentos foi tão eficaz. 

Foram 96 horas que equivaleram, em termos de relaxamento, a semanas, meses talvez. Naquelas 96 horas, longe dos dramas do mundo, distante física e emocionalmente das besteiras que a vida em sociedade impõe, ela se refez. Juntou os cacos emocionais, respirou novos ares e se permitiu pensar, sem pressa ou pressão, no que estava fazendo da própria vida. Foi quando se deu conta do quanto priorizava qualquer coisa acima de si mesma. Do quanto se preocupava com os outros e o quanto se dedicava a eles em detrimento dos próprios desejos. Foi uma constatação triste, mas necessária.

Naquelas 96 horas, minha grande amiga relembrou planos que andavam esquecidos no fundo da gaveta de vida, sonhos e metas que foi deixando para depois até se tornarem apenas um retrato triste empoeirado de algo que deveria ter sido vivido mas não foi – ela não tinha tempo para si, porque se dedicava demais aos outros. 

E de repente, tão simples quanto a própria vida pode ser se você souber viver um dia de cada vez, ela encontrou as respostas que buscava. Ela se encontrou. Em 96 horas ela sepultou frustrações de décadas de vida e enterrou ingratidões e tristezas porque entendeu que para ser ela mesma precisaria tirar o peso do mundo (dos outros) das costas.

Quando o sinal de internet voltou, por alguns instantes ela pensou ter sido tudo em vão. Ela havia sumido por 96 horas, mas pouquíssima coisa tinha mudado. As mensagens no WhatsApp e nas redes sociais se acumulavam às dezenas. Todas, sem exceção, tinham algo em comum: eram conhecidos dela (sim, porque amigos de verdade a gente conta nos dedos) pedindo algum tipo de favor e a maioria reclamando da falta de resposta imediata como era comum ela fazer. Ninguém queria saber o porquê do sumiço, não havia uma mínima demonstração de empatia ou preocupação, mesmo daqueles que se consideravam íntimos o suficiente para sugar a energia dela em tempo integral.

A hesitação dela durou poucos minutos. A reação dos então amigos, agora mero conhecidos, só reafirmou as certezas que aquelas 96 horas trouxeram: algo nela mudou e, como que em um passe de mágica, isso mudaria tudo ao redor dela também. 
Foi necessário chegar ao fundo do poço para a minha amiga aprender a lição. Mas ela fez. E engana-se quem pensa que ela ficou lá: não só já saiu do fundo do poço como está determinada a nunca mais voltar àquele lugar, especialmente por motivos provocados pelos outros. 
Bem-vinda de volta, minha grande amiga. Senti a sua falta!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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