Zona de conforto ou zona de sofrimento?

Por: Felipe Sandrin | 18/10/2019 06:00:40

Você é viciado em sua rotina? Coisas imprevisíveis lhe desgastam? Pois saiba que você ainda não está doente. A rotina se revela pela repetição e a repetição leva ao automatismo: mas por quê? Porque movimentos repetidos tendem a necessitar de menor esforço cerebral, logo, poupamos energia. Lembre-se que nem sempre os alimentos estiveram à nossa mão. Durante milhões de anos nossa energia era basicamente usada para reprodução, reação a situações perigosas e encontrar alimentos. Diante dessa necessidade de pouparmos energia a rotina se mostrava fundamental aos que quisessem sobreviver.

O que quero lhe dizer então é: se você está esperando que um milagre lhe tire a inércia, se você aguarda um espírito divino que lhe proteja do constante sofrimento, se você apenas reza todas as noites para uma dádiva lhe salvar das coisas e pessoas ruins que estão ao seu lado então é melhor você cair na real, pois isso não irá acontecer.

Acorde meia hora antes, coloque vinte minutos de qualquer exercício no seu dia, leia uma mísera página de algum livro todos os dias, assuma essa responsabilidade pelo que apenas depende de você. Se você não consegue levantar quando seu celular desperta, acha que conseguirá um emprego melhor? Se você não consegue perder um quilo daquele peso que lhe incomoda, acha que conseguirá dar um basta ao seu relacionamento abusivo? Se você não tem poder sobre coisas que só dependem da sua força de vontade, acha sinceramente que conseguirá mudar a atitude do mundo que está à sua volta e parece não querer lhe olhar com admiração e amor?

Para cada promessa feita e não cumprida uma nova pedra é adicionada a essa mochila invisível que lhe acompanhará. Podemos mentir ao mundo sobre quem somos e o que merecemos, mas não podemos mentir a nós mesmos. Podemos, sim, nos vitimizar e culpar a outros pela nossa situação, mas no final do dia aquela mágoa que sentiremos terá o gosto vazio de nossa própria culpa.

As pessoas estão mergulhadas em tantas desculpas que passam a acreditar nisso: que não depende mais delas, mas de uma conspiração do cosmos. E esse é o ponto máximo do fracasso, dali por diante tudo que poderia ser resolvido por nossas mãos passa a estar nas mãos de outros. Empregos ruins, relações ruins, amizades que servem apenas para que não fiquemos sós. Uma reação em cadeia de coisas mortas que se acumulam em algum canto de nós, um cantinho do qual toda noite emerge um monstro terrível sem nome.

Não damos nomes a nossos problemas, nossos piores defeitos e nossas desculpas. Não encaramos a verdade e entregamos as rédeas de nossa vida para outros. E assim acordamos já sem disposição, nossos prazeres passam a estar numa garrafa com álcool, nossas amizades se destinam a falar sobre coisas vazias e fofocar sobre a vida de outros. Até que um dia nos vemos dizendo aos outros: “Eu tento, mas não consigo”. O que era negação à própria culpa se cristaliza em palavras.

Eis o fracasso de uma vida entre acúmulos de desculpa e falta de vontade para o fazer. O que você já chamou de rotina agora se apresenta como dor e vazio. Você pensa que chegou do nada, mas sempre esteve aí, se alimentando e crescendo das vezes que você se negou o direito de crescer.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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