Como é criar um filho no país com mais assassinatos no mundo?

Por: Felipe Sandrin | 11/03/2016 00:00:00

Ontem fiquei na companhia de minha bicicleta até meia-noite, sem consultar o relógio, sem medo que o tardar da noite trouxesse maus elementos às ruas. Sei que corremos riscos em todos os lugares, mas hoje também sei que há dois tipos de lugares: aqueles que nos fazem sentir risco o tempo todo e aqueles que, de tão tranquilos, nos fazem esquecer esses riscos. Bem, claro que eu não estava em Bento Gonçalves, apenas loucos sairiam para pedalar ou caminhar à meia-noite em Bento.
Lamento muito pelas pessoas que nunca sentiram o gosto da liberdade, a simples sensação de não se sentirem acuadas diante do anoitecer. Geralmente identifico essas pessoas por frases como “Todos os lugares estão perigosos”. Deve ser por isso que tantas pessoas que saem do Brasil e partem para países desenvolvidos acabam não querendo voltar para cá e, se voltam, parecem sempre lamentar a liberdade que perderam por estarem aqui. Em um mundo de preocupações, essas que nos fazem ter horário para sair de casa e exigem que fiquemos atentos em que ruas não devemos estacionar são as piores.
Enquanto pedalava, um grupo de ciclistas passou por mim. Eram diversos pais e seus filhos, as crianças fantasiadas para o Halloween, com máscaras e suas bicicletinhas cheias de luzes. Mais uma vez nem me questionei sobre a hora, havia vendedores de churros pela beira-mar e um pessoal da prefeitura estava preparando a colocação de enfeites para o natal. Por um momento senti saudade do bairro onde cresci em Bento Gonçalves, um bairro onde, à meia-noite, a turma se reunia para brincar de esconde-esconde enquanto os pais nos observavam nas sacadas de casas sem grade. Como conseguimos acabar com isso em meros 15 anos?
Tempos mortos nos quais, ao invés de irmos ao cemitério lembrar quem partiu, poderíamos simplesmente olhar pelas janelas e ver as ruas quietas de bairros que já foram tão cheios de vida.
Tempos de despedidas em que se vive pela metade, em que locais são classificados como seguros ou não, em que restaurantes fecham as portas antes dos horários perigosos e o simples ato de estacionar o carro requer análises profundas de riscos.
Dizem que as crianças de hoje crescem em frente a computadores, mas onde mais poderiam crescer? Aos pais cabe a escolha de abrir mão do que se tem e recomeçar em lugares menos violentos – ainda assim torcendo para que esses locais assim se mantenham.
Estamos pagando um alto preço pelo nosso descaso, pela nossa passividade diante da dinamite que se tornou esse Brasil. Mata-se mais aqui do que em países como a Síria. Quando disse isso a um amigo nos Estados Unidos, ele riu. Eu não entendi. Ele me chamou de exagerado e eu segui sem entender. Enviei a ele uma imagem que comprovava o que eu tinha acabado de dizer e ele se calou mergulhado no absurdo dessa notícia. Foram 279 mil assassinatos em quatro anos. Esse número choca quem não tenha ideia de que hoje é mais seguro morar no Afeganistão do que em Porto Alegre.
Dia das bruxas, dia dos mortos, dia dos vivos que não vivem. Somos zumbis em cidades mortas, caminhamos dia após dia sem perceber muito do que acontece à nossa volta. É melhor assim, dói menos, viver sem perceber quanto da vida perde quem vive com medo.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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