Ela se matou

Por: Greice Scotton Locatelli | 11/01/2019 10:33:11

Sempre que a notícia de que uma pessoa cometeu suicídio surge, a maioria das pessoas tende a julgar: “Mas ela tinha tudo, por que fez isso?”. “Será que ninguém da família percebeu?”. “Ele parecia tão feliz”. “Ela devia ter procurado ajuda”. “Aposto que ela já tinha tentado antes”. “Será que ele não pensou na tristeza da mãe?”.

Ah, como é rápido e fácil julgar! E como é superficial e inútil tentar encontrar explicações.

Eu imagino o tamanho da dor da pessoa que, em um ato extremo, decide tirar a própria vida. Também posso imaginar a dor lacerante de quem fica e, de repente, se vê não apenas de luto, mas também tendo que lidar com culpas e remorsos que talvez nem devessem ser seus. Para piorar, são vítimas de olhares julgadores e maldosos e de pessoas sem noção – para não dizer mal-educadas. São raros os casos de gente que enfrenta algo assim e consegue se recuperar emocionalmente. Agora eu pergunto: e se fosse com você? Como você se sentiria sendo julgado porque alguém do seu convívio se suicidou?

Geralmente, nesses momentos, nós, jornalistas, somos cobrados: “fulana morreu e eu não vi nada no jornal”. Já expliquei em outras oportunidades, mas sempre é válido lembrar: o SERRANOSSA NÃO DIVULGA SUICÍDIOS*. Seguimos uma recomendação da Organização Mundial da Saúde baseada em décadas de estudos que defendem que, tal qual as pessoas se inspiram ou se sensibilizam com histórias de outras pessoas, podem se identificar com a tristeza de quem decidiu pôr fim à própria vida e fazer o mesmo. Repudiamos toda e qualquer divulgação desse tipo, especialmente as que informam detalhes da história para conseguir audiência. É o mais puro exemplo de desfavor à humanidade.

Vamos praticar um pouco de empatia: imagine que seu pai decida tirar a própria vida. Você gostaria de ver isso exposto publicamente? Imagine que sua filha resolva cometer suicídio. Você gostaria de ver todos os detalhes do que aconteceu e de como ela se matou na imprensa? Imagine que o seu namorado, em um ato desesperado, se mate. Você gostaria que as pessoas soubessem o motivo através de um jornal? Espero que a resposta seja não, afinal, a maioria das pessoas tende a não desejar que tais situações aconteçam, especialmente com alguém próximo. 

Ah, mas você quer saber “só por curiosidade” por que ou como a “fulana” se matou e os detalhes do ocorrido, incluindo o possível impacto emocional em quem a amava. Isso não é óbvio? É óbvio que familiares, amigos e colegas de trabalho estão arrasados. É óbvio que muitas dessas pessoas estão se culpando ou pensando que poderiam ter feito algo para evitar. É óbvio que há muita, mas muita, dor envolvida. Para que piorar isso em nome de uma curiosidade momentânea? Que diferença isso vai fazer na sua vida?

Quando alguém jovem, aparentemente bem sucedido e com uma vida inteira pela frente decide se matar, as perguntas são inevitáveis, mas faz parte do nosso dever, como seres humanos igualmente imperfeitos, respeitar a dor de quem ficou. Não deixemos a situação ainda pior tentando julgar ou justificar o que só quem tomou essa decisão saberia explicar. Ninguém sabe a dor pela qual o outro está passando, mesmo que divida a vida com ele. Cada um de nós é único em suas alegrias e imperfeições e cabe a cada um de nós tentar encontrar um ponto de equilíbrio.

Constatações da vida, para reflexão: não existe pessoa perfeita, relacionamento perfeito, família perfeita, trabalho perfeito. Existem seres humanos, imperfeitos, cheio de defeitos, dúvidas, medos, arrependimentos e frustrações, cujas personalidades foram moldadas pelas experiências que viveram. Esses seres humanos tentam, da melhor forma possível, conviver uns com os outros. Alguns se dão bem, outros batem de frente uma vida inteira. Mas um fato segue inalterado: eles seguem sendo imperfeitos. NÓS seguimos sendo imperfeitos.

 

*Exceção para os casos em que uma pessoa mata outra e depois se suicida. Nesse caso, entendemos que é necessário noticiar em virtude de que uma vítima foi morta de forma violenta, o que configura crime


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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