Quantos estômagos precisamos ter?

Por: Felipe Sandrin | 11/01/2019 13:03:57

Quantos “estômagos” precisamos ter se somos sempre obrigados a escolher lados e fingir que conhecemos bons e maus?

Há não muito tempo atrás detestávamos alguns vizinhos, talvez alguns parentes e colegas de trabalho. Detestávamos de forma mesquinha, por conta de fofocas ou talvez pelo fato de, simplesmente, ser de nossa natureza não gostarmos de algumas pessoas. Sem grandes motivos, apenas dizíamos “não ir com a cara”.

Hoje já não cabemos em tão poucos argumentos: gostar por gostar e não gostar sem motivo se tornou algo feio, insuficiente. Logo, então, buscaríamos reais motivos para odiar os outros. Pela religião, pelas escolhas políticas, por soltar foguetes quando o time dele ganha e quando o meu perde.

Na internet há infindáveis informações e para cada uma dessas precisamos mentalmente exercitar o “concordo” ou “não concordo”. Não há mais espaço para a frase: “Eu não entendo nada sobre isso, então prefiro não opinar”. Aliás, qual foi a última vez que, por exemplo, ao falar de política e economia com alguém a pessoa lhe respondeu dessa forma, dizendo não se sentir suficientemente capaz de opinar? Difícil, né? Agora me diga: quantas dessas pessoas com as quais você convive são brilhantes e dedicadas a analisar política e economia?

Essa necessidade de opinarmos o tempo todo está fazendo jovens de 18 anos se sentirem mentem iluminadas. Todos acham que sabem tudo – e eu me incluo nisso. O nosso ego é um animal sensível, mas extremamente perspicaz. Basta um pequeno espaço e ele grita. Basta uma pequena liberdade e o sentimento de que alguém irá nos escutar e pronto, lá estamos nós a ruminar qualquer coisa na esperança de que outros também possam firmar nosso discurso e trazer alguma legitimidade àquelas ideias que escutamos em algum lugar do qual nem lembramos.

Como isso poderia ser saudável?  Enchemos a boca para falar sobre todos os acessos que hoje temos, mas será que estávamos realmente prontos a tudo que nos chega todos os dias? Do dia para a noite nos tornamos direita ou esquerda, religiosos ou ateus, classe alta ou baixa, vítimas ou cúmplices.  E, se decidirmos não ter um lado, caímos em um terreno ainda mais perigoso: o “morno” não é mais bem-vindo nesse mundo de cabeças que fervem e corações de gelo.

Deveríamos, em nome de nossa saúde mental, ter ao menos um dia da semana longe de tudo que possa ser considerado informação. Um dia sem vídeos de cachorrinhos fofos, sem discursos políticos, sem uma nova tecnologia que está sendo testada em Israel. Um dia sem mídias sociais e sem televisão, um dia para, como antigamente, no máximo falarmos mal de um vizinho, de um parente ou de qualquer coisa que não necessite de um motivo a ser debatido.

Nessa ânsia de colocarmos um rótulo em tudo, acabamos rotulando a nós mesmos. Resultado: nós nos tornamos medrosos quanto a deixar outros nos verem sem essa armadura que criamos para parecermos mais tecnológicos, envolvidos e prontos para mudar o mundo.

Somos como piscinas cheias, mas em vez de água cristalina estamos cheios de um líquido pesado.  E, mesmo assim, sem espaço, sempre damos um jeitinho de colocar mais informações inúteis nesse nosso depósito. Até que um dia fica quase impossível morar em si, mas aí já não há para onde correr, é tarde demais para sermos outra coisa. E a gente nem sabe se gosta mesmo daquilo que nos tornamos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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