Não era óbvio?

Por: Greice Scotton Locatelli | 11/08/2019 09:31:57

Qualquer mudança costuma vir acompanhada de muita reclamação. Quando se trata de algo que afeta a vida de muita gente, fica mais difícil ainda de engolir, por mais justificado que seja. Nesta semana, o anúncio da alteração nas regras de uma das cobranças mais controversas para a comunidade gaúcha causou revolta. As medidas que envolviam o Imposto sobre Propriedade de Veículo Automotor, o fatídico IPVA, foram anunciadas na segunda-feira, dia 4, e, menos de 24 horas depois, o governo recuou. Nos bastidores, circula a informação de que não se esperava uma reação tão ruim da população. Ora, isso não era óbvio?


O governo realmente achou que a população não se revoltaria por ter que pagar o IPVA à vista, em pleno janeiro, junto a tantas outras despesas típicas de início de ano? O governo realmente achou que as famílias gaúchas teriam condição de se reorganizar assim, de repente, depois de anos acostumadas com a outra forma de pagamento, sem reclamar? O governo realmente achou que os servidores estaduais que ainda nem terminaram de receber o 13º de 2018 nem o salário de outubro e que sofrem com o parcelamento de seus ganhos iriam aceitar pacificamente? Isso não era óbvio? 

 

Uma pitada de “vida real” era suficiente para perceber que muitas situações precisariam ter sido postas na balança antes da divulgação, já que isso afetaria muita gente e causaria um baque na economia. Qualquer trabalhador, mesmo que não esteja endividado, sabe a dificuldade de fechar a conta no final do mês e sabe o arrastão financeiro que o aguarda no início do ano, ainda mais em tempos de tamanha incerteza econômica e política.

 

A falta de retorno sobre os impostos que todos nós pagamos – vide as péssimas condições das estradas da nossa região – ajudou a engrossar o coro contrário às novas regras. E com razão! 

 

Entre as repercussões negativas noticiadas pela imprensa, eu assisti a uma entrevista com um economista convidado para dar ideias sobre como as pessoas poderiam se organizar financeiramente. Ao vivo, ele admitiu que não tinha muito o que indicar frente a um anúncio desse porte, feito menos de dois meses antes de a conta chegar. Embora não amenize a gravidade, talvez se as medidas tivessem sido oficializadas mais cedo, o recuo total não teria sido necessário.

 

 

Na minha opinião, perguntas inevitáveis que surgiram imediatamente após o primeiro anúncio deveriam ter sido pensadas antes pela equipe de governo: será que a tão falada “retomada pós-crise” será possível se as pessoas deixarem de gastar em uma das épocas de maior movimento no comércio? Se menos gente for às compras, a necessidade de contratação de mão de obra temporária se mantém? Se menos empregos forem gerados, a roda da economia seguirá girando? Quantas pessoas simplesmente deixarão de pagar o IPVA por não ter condições de se adequar à nova forma de pagamento? E quanta gente que não conseguiu pagar será simplesmente obrigada a não mais usar o carro dado o risco de multa gerado pelo aumento da fiscalização, inclusive automática, buscando punir os inadimplentes? 

 

Como cidadã, penso que a decisão de recuar foi acertada. Mas ao mesmo tempo em que demonstra humildade, a anulação da medida gera certa insegurança: as pessoas que deveriam ser especialistas em gerenciar crises não cogitaram questões óbvias antes da decisão? Se cogitaram, por que ainda assim tentaram? É inevitável pensar que se fosse a única solução possível o governo não teria recuado, apesar da polêmica, tal qual ocorreu há alguns anos, quando o anúncio de que os salários seriam parcelados foi feito. Para mim, demonstra ser um ato desesperado, quase amador. 
Qualquer mudança costuma vir acompanhada de muita reclamação. Quando se trata de algo que afeta a vida de muita gente, fica mais difícil ainda de engolir, por mais justificado que seja. Nesta semana, o anúncio da alteração nas regras de uma das cobranças mais controversas para a comunidade gaúcha causou revolta. As medidas que envolviam o Imposto sobre Propriedade de Veículo Automotor, o fatídico IPVA, foram anunciadas na segunda-feira, dia 4, e, menos de 24 horas depois, o governo recuou. Nos bastidores, circula a informação de que não se esperava uma reação tão ruim da população. Ora, isso não era óbvio?


O governo realmente achou que a população não se revoltaria por ter que pagar o IPVA à vista, em pleno janeiro, junto a tantas outras despesas típicas de início de ano? O governo realmente achou que as famílias gaúchas teriam condição de se reorganizar assim, de repente, depois de anos acostumadas com a outra forma de pagamento, sem reclamar? O governo realmente achou que os servidores estaduais que ainda nem terminaram de receber o 13º de 2018 nem o salário de outubro e que sofrem com o parcelamento de seus ganhos iriam aceitar pacificamente? Isso não era óbvio? 
Uma pitada de “vida real” era suficiente para perceber que muitas situações precisariam ter sido postas na balança antes da divulgação, já que isso afetaria muita gente e causaria um baque na economia. Qualquer trabalhador, mesmo que não esteja endividado, sabe a dificuldade de fechar a conta no final do mês e sabe o arrastão financeiro que o aguarda no início do ano, ainda mais em tempos de tamanha incerteza econômica e política.


A falta de retorno sobre os impostos que todos nós pagamos – vide as péssimas condições das estradas da nossa região – ajudou a engrossar o coro contrário às novas regras. E com razão! 
Entre as repercussões negativas noticiadas pela imprensa, eu assisti a uma entrevista com um economista convidado para dar ideias sobre como as pessoas poderiam se organizar financeiramente. Ao vivo, ele admitiu que não tinha muito o que indicar frente a um anúncio desse porte, feito menos de dois meses antes de a conta chegar. Embora não amenize a gravidade, talvez se as medidas tivessem sido oficializadas mais cedo, o recuo total não teria sido necessário.
Na minha opinião, perguntas inevitáveis que surgiram imediatamente após o primeiro anúncio deveriam ter sido pensadas antes pela equipe de governo: será que a tão falada “retomada pós-crise” será possível se as pessoas deixarem de gastar em uma das épocas de maior movimento no comércio? Se menos gente for às compras, a necessidade de contratação de mão de obra temporária se mantém? Se menos empregos forem gerados, a roda da economia seguirá girando? Quantas pessoas simplesmente deixarão de pagar o IPVA por não ter condições de se adequar à nova forma de pagamento? E quanta gente que não conseguiu pagar será simplesmente obrigada a não mais usar o carro dado o risco de multa gerado pelo aumento da fiscalização, inclusive automática, buscando punir os inadimplentes? 


Como cidadã, penso que a decisão de recuar foi acertada. Mas ao mesmo tempo em que demonstra humildade, a anulação da medida gera certa insegurança: as pessoas que deveriam ser especialistas em gerenciar crises não cogitaram questões óbvias antes da decisão? Se cogitaram, por que ainda assim tentaram? É inevitável pensar que se fosse a única solução possível o governo não teria recuado, apesar da polêmica, tal qual ocorreu há alguns anos, quando o anúncio de que os salários seriam parcelados foi feito. Para mim, demonstra ser um ato desesperado, quase amador. 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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