As tragédias da nossa vida

Por: Greice Scotton Locatelli | 14/11/2019 06:00:04

Às vezes eu me pego pensando nas tragédias pelas quais todos nós passamos – seja de que gravidade for. Pais que perderam filhos, gente que é diagnosticada com uma doença potencialmente fatal, quem perdeu a visão, mães cujos bebês morreram antes ou logo após nascer, tantas vítimas da violência banal ou do descaso político com a saúde, esposas ou maridos que ficaram viúvos de repente, filhos que perderam as referências de suas próprias vidas quando os pais se foram. Gente que continua viva, mas que talvez já não viva – apenas sobreviva. As tragédias têm tantas faces, tantos contornos, tanta dor em si que não há como medir ou descrever com exatidão.

O quanto uma tragédia pessoal nos afeta varia conforme as nossas vivências, mas uma coisa é certa: só quem a atravessa sabe o quanto ela dói. E mesmo quem não teve que lidar com a morte em si pode ter suas tragédias pessoais das quais nem desconfiamos: para pais de uma criança de dois anos que descobrem que o filho é autista, talvez essa seja uma tragédia do tamanho da do motorista que sofreu um grave acidente de trânsito e, mesmo tendo que comemorar por ter sobrevivido, carrega a culpa por ter ferido outra pessoa. Os pais que perderam um bebê que sobreviveu à prematuridade, mas não resistiu a uma pneumonia quando o pior parecia ter passado têm uma definição própria de tragédia tanto quanto o professor que tem que consolar os alunos após a morte de um colega que foi esfaqueado por causa de um celular durante um assalto. Famílias ceifadas pelos filhos que não resistiram às tentações do mundo das drogas podem considerar isso uma tragédia tanto quanto aqueles para os quais o divórcio é uma tragédia. Assim como quem ficou depois que alguém querido resolveu dar fim à própria vida. Para uns, uma briga familiar é uma tragédia. Para outros, o próprio fracasso. E quem somos nós para julgar a dor de quem convive conosco?

Não cabe a mim ou a você avaliarmos se a tragédia dos outros tem o mesmo peso que a nossa, se a dor do outro é maior ou menor que a nossa ou se o tempo que ele leva para se recuperar (quando consegue) é condizente com o que pensamos ser o ideal. Cada um sabe onde a ferida dói. E talvez isso seja o mais triste nesse contexto: lidar com as nossas tragédias é algo extremamente solitário. 

Você pode estar cercado de pessoas o tempo todo, gente genuinamente preocupada com o seu bem-estar, em como está o seu emocional depois daquela rasteira que a vida deu. Mas, ainda assim, estará sozinho. Mesmo que alguém segure a sua mão o tempo todo, vai haver aquele momento, aquela fração de segundo em que sua mente vai relembrar aquele sofrimento e trazer consigo a enxurrada de emoções que você conhece bem e contra a qual precisa lutar.

Ter uma rede de apoio ajuda, sem dúvidas, mas é preciso ter em mente que a força que você precisa só você pode encontrar, assim como a fé. E só quem já passou por um tsunami emocional sabe o quanto essa tarefa é difícil, mas o quanto é recompensador, depois que a tempestade passou, olhar para trás e, de cabeça erguida, se orgulhar por ter sobrevivido àquela provação – mesmo tendo se tornado apenas um emaranhado de cacos de vidro mal remendados.

Eu não sei como você reage às suas tragédias – para ser sincera nem eu sei como sobrevivi/sobrevivo às minhas – mas aprendi que amanhã é um novo dia e que tudo recomeça. Que o tempo ajuda a amenizar a dor. Que daqui a pouco a vontade de chorar passa, o aperto no peito diminui. Mais do que isso, aprendi que o mundo, na sua crueldade peculiar, não para só porque você está sofrendo. E que isso, no fundo, é bom, é um empurrão para que a gente se cure, afinal, não temos alternativa.

Então, o jeito é encontrar uma maneira só nossa de sobreviver a mais um dia. Sem desmerecer o sofrimento, mas sem dar a ele mais voz do que merece, sem “bengalas emocionais” que podem arruinar tudo – leiam-se remédios, drogas, álcool, hábitos compulsivos. Não tenho a resposta para as suas dores, quiçá para as minhas. Mas aprendi que tudo acontece porque tem que acontecer e espero, um dia, entender os motivos. 

Talvez doa menos pensar que um dia tudo passa. Talvez seja só uma autoenganação ou um truque barato que tentamos pregar nas nossas próprias mentes. Só sei que em determinados dias, agarrar-se à afirmação de que “vai passar” é a única coisa que temos. Então, cabeça erguida, foco, força e fé. Um dia de cada vez. Uma tragédia de cada vez. A chave está dentro de você. Não desista! Isso também vai passar.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.



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