Tempos fáceis, pessoas frágeis 

Por: Felipe Sandrin | 22/11/2019 06:00:13

O mundo se tornou mais difícil ou as pessoas se tornaram mais frágeis?

Muitos citam o exemplo dos relacionamentos, sobre como eles ficaram complicados. Mas, então, questiono: será que as relações eram mais fáceis para nossos pais e avós? Como quando se apaixonavam e por meses precisavam cortejar a fim de ganhar o simples direito de pegar na mão. Pense em nossos avós, nas cartas que levavam meses para chegar e para serem respondidas. Falarmos que hoje relações são mais complicadas é uma amostra clara sobre como perdemos totalmente a noção do quanto a vida já foi difícil.

Tememos a ansiedade, perdemos o sono pensando se nossos sonhos vão se realizar. E que sonhos tinham nossos pais? Um pedaço de terra, um telhado mais firme para a casa, roupas que não tivessem buracos. De sonhos simples construíram o alicerce das gerações seguintes e seus sonhos complicados. Modelos e seus corpos, jogadores e seus carros, milionários sem precisar fazer muita coisa. Da luta por comida fomos ao sonho de ter seguidores em redes sociais. Mundo difícil, hoje? Falamos isso por não termos a mínima ideia do que já foi considerado difícil.

Não podemos simplesmente menosprezar o que nos tornamos e os filhos que criamos. São tempos frágeis e essa realidade não será mudada tão cedo. Amamos esses que chegam, respeitamos que tenham sonhos, mas, ainda assim, se eles não estiverem prontos para o que devem fazer, logo outros vão tomar seus lugares.

Queremos o amor de graça, estimulamos um amor próprio fake, vendemos a ideia desse amor como se ele estivesse debaixo de uma pedra ou dentro de um coração quase sem vida. A sensação que enchia o peito de orgulho pelas realizações se tornou um dicionário moderno encabeçado por semipalavras: Ame-se. Sonhe. Você consegue.

Adoecemos não pela complexidade do mundo, mas, sim, pela herança deixada por mãos calejadas. Aqueles que tanto trabalharam por nós, pelo mundo, deixaram-nos esse mundo fácil onde podemos desenvolver tecnologias sem utilizá-las em guerras, um mundo onde podemos tirar alguns anos de nossa vida para inventarmos um sonho – caso ainda não tenhamos nenhum.

Tempos difíceis construindo pessoas fortes, que por sua vez constroem tempos melhores, os quais criam pessoas fracas. Um ciclo que se repete a milênios e que agora claramente há de nos colocar em tempos difíceis.

Em um mundo repleto de possibilidades, nós nos tornamos frágeis e inseguros. Tudo tão mastigado, tudo levando cinco minutinhos no micro-ondas. O preço que pagamos é esse: achar que tudo é complicado demais ao invés de reconhecermos nossa própria incapacidade de pensar sobre como as coisas funcionam.

Na ânsia por girarmos as engrenagens internas nós esquecemos que as engrenagens já funcionam há muitos tempo e elas vão muito além de nós próprios.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 772
08/07/2020 00:05:53
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA