Quase dezembro

Por: Felipe Sandrin | 29/11/2019 06:00:33

Um conhecido me relatava a experiência de chegar aos 50 anos, até que lhe fiz refletir ainda mais – ou desesperar: cara, tem noção que, seguindo a média, você tem mais uns 23 verões só?

É diferente pensarmos em quantidade de anos e eventos. Cinco copas do mundo, cinco presidentes e 23 verões. Esse é o saldo médio de uma pessoa que já bateu os 50. Mas caso você esteja nos 40, pense que você tem provavelmente menos anos pela frente do que já teve, imagine absolutamente tudo que você já viveu e perceba que você tem menos memórias por cultivar do que já teve durante toda sua vida.
Deprimente? Depende. A morte e seus mistérios sempre serão essa parede branca em nossa mente, nostálgica sem saber-se, triste pela natureza pálida do que nos esconde. Mas pense em como passa tudo tão rápido, pense nos planos de janeiro e reflita sobre como daqui menos de um mês já estaremos novamente em janeiro de um novo ano.

Eu já perdi a conta de quantos textos desse tipo escrevi para o SERRANOSSA, talvez umas 15 vezes já refleti junto a você sobre como os anos passam rápido. O que posso constatar de novo desta vez? É que este ano passou ainda mais rápido do que outros.
Então um aviso a você que é jovem: o tempo passa diferente aos 30, 40 e 50, o ano passa muito mais rápido e você insistentemente recorda de como cada vez passa mais rápido.

Temos essa falsa ideia de um tempo linear. Quando temos 10 anos, um ano parece tempo que não acaba mais. Aos 20, chegamos a acreditar que nesse ritmo a vida passa é devagar, mas mais ali na frente percebemos que o ano corre diferente para aqueles sobre os quais o tempo exerceu mais pressão.

Eu queria ter ainda aquela energia para as retrospectivas, ficar mensurando o que aconteceu de bom e ruim, traçar um panorama geral dos acontecimentos, mas a verdade mesmo é que quem faz isso ainda espera grandes surpresas do mundo – e surpresas também são ideias para aqueles que veem o tempo passando lento. E veja, não estou falando que seja ruim ficar mais velho e ver o tempo correr com passadas mais largas: é uma sensação diferente, como se toda indignação, as alegrias e as decepções passassem a fazer parte de um mesmo conjunto dessa obra imutável.

A gente vai tirando a roupa de super-herói e aos poucos tomamos consciência de que não se trata de salvar o mundo, mas, sim, salvar a si mesmo, ser herói das pequenas coisas para si e para alguém que muito se ama.

Não é sobre o tempo e suas formas, mas sobre como passamos a pertencer a ele, sem negá-lo nem tanto temê-lo, mas respeitá-lo e aceitar que a ele pertencemos, nós todos, jovens do ontem e velhos do amanhã.

Enfim, é quase dezembro, em breve um ano novo vem aí. Para 2020, novos grandes planos ou apenas os mesmos nos quais você vem trabalhando há tanto tempo? É, os novos anos se tornam cada vez mais velhos conhecidos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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