O imediatismo nosso de cada dia

Por: Greice Scotton Locatelli | 12/06/2019 06:00:40

Parece que a tecnologia que tanto facilita nossa vida tem trazido um imediatismo que não condiz com as imperfeições humanas. Todo mundo tem opinião pronta (geralmente superficial) para todos os dramas da humanidade e um dedo em riste só esperando para apontar os defeitos (dos outros, claro). O problema é que sempre que nós julgamos alguém fazemos isso com base nas nossas próprias vivências. Ora, se eu opino sobre as decisões que o outro tomou sem saber as circunstâncias que o levaram àquilo, como pode esse “julgamento” ser justo? E quem diz que aquela pessoa acha que as minhas escolhas são certas?

As redes sociais revolucionaram a comunicação, dando voz e poder de opinar a todos que se dispuserem a fazer parte desse mundo. Mas o fato de ter acesso à informação e de a opinião estar a um clique de distância não significa que você tenha que opinar sobre tudo, o tempo todo – e isso engloba desde polêmicas de política em nível nacional, por exemplo, até a decisão que a prima do seu amigo de infância toma em relação ao próprio filho. “Ah, mas como as pessoas vão saber que eu deixei um comentário sobre aquilo?”, você pode questionar. Lembre-se: praticamente tudo que você faz on-line se torna público, ou seja, pessoas que você nem conhece podem ver e, tal qual você julga, um dia poderá ser julgado por elas. E nesse mundo, acredite, passar vergonha desnecessariamente é bem fácil.

Pior do que ter essa falsa sensação de que a sua opinião é necessária é fazer isso sem levar em consideração que pode estar desrespeitando os outros. Sim, no imediatismo do momento, é muito fácil sair atacando com base em argumentos frágeis, supérfluos e, muitas vezes, sem fundamento, quando não de forma mal-educada. Já houve casos, em Bento Gonçalves mesmo, de pessoas condenadas a indenizar outras em função de ofensas on-line. Claro que na esmagadora maioria dos casos ainda impera a falta de consequências da terra sem lei chamada internet. Embora já se tenha algumas diretrizes do que pode ou não ser aceito, há um abismo de distância entre a teoria e a prática. Mesmo assim, não custa alertar algum desavisado.

Na dúvida, eu prefiro pensar: minha opinião vai fazer diferença? Poderá, de alguma forma, influenciar o resultado? Se a resposta for não, prefiro o silêncio. Isso não significa que eu queira impor algum tipo de comportamento. Cada um decide o que lhe convém e cabe a mim respeitar isso. Eu posso não gostar (de uma opinião, de uma pessoa ou de um comportamento), mas é meu dever respeitar.

O mesmo imediatismo é percebido também naquelas situações que afetam a coletividade. Quer um exemplo concreto? Tramita na Câmara dos Deputados uma proposta para alterar o Código de Trânsito Brasileiro e proibir que motociclistas possam transitar entre carros em movimento. Em um primeiro momento, todo mundo é radicalmente a favor, com argumentos superficiais do tipo “motoqueiro só atrapalha”, “eles andam feito uns loucos”, “não teria tanto acidente se não fossem as motos”. A opinião muda – rápido e radicalmente – assim que a tele-entrega de pizza ou aquela encomenda atrasarem ou quando o trânsito se tornar ainda mais caótico porque as motos ocuparão o lugar de um carro nas ruas. 

É isso que eu quero deixar claro: ter opinião é legal, mas é preciso ver o outro lado da mesma questão e lembrar que aquela atitude se torna nociva a partir do momento em que alguém pode se sentir ofendido por aquilo. Não dá pra radicalizar, ser estúpido ou grosseiro achando que sua opinião vale mais do que a do outro porque não vale. Assim como a do outro não vale mais do que a sua. Respeito é bom, inclusive na internet. E um mundo melhor passa necessariamente por mais respeito. Façamos a nossa parte!
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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