Não deixe que aquele pouquinho lhe baste

Por: Felipe Sandrin | 12/06/2019 06:00:59

Dá para ser feliz com pouco, desde que você tenha muito: ‘Ué cara, mas como assim?’

Explico.

O pouco pode vir de coisas secundárias: um pouquinho de dinheiro, um pouquinho de conforto, um pouquinho de planos e um pouquinho de esperança que tudo dará certo. Esses pouquinhos quase sempre são uma chama suficiente para nos aquecer em dias frios e ruins.
Agora, não dá para viver com um pouquinho de amor. Um pouquinho de amor não nos basta, mas nos frustra. Porque, diferente do pouquinho que recebemos de coisas triviais, a presença de outro alguém precisa ser inteira, precisa ser revigorante: e por que temos essa exigência dentro de nós? Talvez por já termos sentido essa completude onde mesmo que tudo nos parecesse faltar a simples presença do ser amado já era o suficiente para sentirmos a alegria de estarmos vivos. Ou talvez por lá dentro de nós existir esse constante sentimento de que há coisas nessa vida que são de fato imprescindíveis. 

O mundo está cheio de pessoas infelizes que querem o muito das coisas abstratas e exigem o pouquinho da vida sentimental. Elas não entendem que receber migalhas de sentimentos não será o suficiente e logo essa falta do real sentir irá escorrer para essas áreas da vida que não são as principais. Por isso tantos apartamentos gigantes vivenciam a tristeza, por isso tantos voos de primeira classe não possuem mãos dadas, por isso tantos carrões são apenas isso, carrões. Ao mesmo tempo por isso tantos quartinhos pequenos, tantos colchões no chão, tantos cinemas pagando meia-entrada e cachorros-quentes na esquina se tornam tão acalorados, tão sinceramente aconchegantes e tão presentes em nossas memórias desses tempos de perrengue, mas que traziam ao fim do dia uma sensação de preenchimento e de que estávamos, sim, traçando o rumo certo.

Um quartinho com dois enamorados tem pouco de material e muito de sentimento. Um apartamento lindamente mobiliado pode guardar mais tristeza do que aquele monte de metros quadrados podem suportar. Uma passagem comprada meses antes para poupar um dinheirinho e podermos ver a pessoa amada pode significar mais a nós do que finais de semana regados de fartura.
Não cometa o erro de tantos que estão nesse momento à sua volta. Cuidado com isso, para não querer muito daquilo que vale pouco e aceitar pouco daquilo que realmente traz valor à nossa vida.

Presença, carinho, amor e compartilhar, rirem e se aventurarem juntos. O sentimento dividido, a reciprocidade é o maior tesouro que alguém pode encontrar. E diante daquilo que nos pode ser pouquinho jamais um pouco de amor nos bastará, porque não existe pouco amor, o amor é a única coisa que só pode ser se for por inteiro.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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