Privatiza tudo

Por: Felipe Sandrin | 17/11/2016 00:00:00

O brasileiro precisa ser estudado, sério, está para nascer um povo tão paz e amor quanto a gente. Vejo na TV o caos da “cidade maravilhosa”, servidores públicos quebrando tudo, a polícia fazendo de conta que quer impedir o caos, os vereadores mal aparecendo para trabalhar em uma semana cheia de decisões importantes. E saber que há alguns meses teve as tais Olimpíadas. Uma grana preta jogada literalmente no lixo, usada para maquiar uma cidade que detém como único brilho as coisas que o homem não tocou. De fato o Rio de Janeiro é uma cidade incrível, igualada somente pelo seu monumental fracasso administrativo.

Eu poderia falar de Porto Alegre também, mas o que falar de uma cidade que detém os maiores índices de estupro do país, uma cidade na qual a cada 5 minutos um celular é roubado e que ocupa um lugar entre as 50 mais violentas do mundo? Isso sem falar da maior formadora de comunistinhas do Brasil, a famosa UFRGS. O que dizer dessa Porto Alegre que aprendi a passar longe e me faz ter dó de quem mora lá?

Incrível que apesar de tudo isso, apesar de estarmos respirando por aparelhos e termos uma das piores qualidades de vida do mundo, ainda assim nossa gente é “de boa”, consegue levar tudo a seu jeitinho.

Só para completar a festa, a World Travel, empresa que examina os destinos mais visitados no mundo, classificou o Brasil no ranking de turismo. Adivinhem só: ninguém quer vir para cá. Literalmente. O Brasil inteiro recebe cinco milhões de estrangeiros por ano. Para você ter uma ideia, o Coliseu sozinho – aquele monte de pedra que já foi algo – recebe praticamente isso. E a cidadezinha de Miami nos Estados Unidos detém a marca de sete milhões. Ah, ganhamos do Peru, só que nossos números não crescem há uma década, enquanto os deles triplicam todo ano.

Foi bom enquanto durou o dinheiro de quem trabalhava, de quem inovava e se virava como podia, porém, desde que o empresariado resolveu mandar geral embora e vender tudo, aí o bicho pegou. Ficou claro que era pouca gente trabalhando para sustentar muitos que não queriam trabalhar. No próprio Rio de Janeiro, hoje se gasta mais com funcionários públicos inativos do que com aqueles que estão “trabalhando”. Não há como sobreviver a isso.

Definitivamente caiu a máscara dos últimos anos, aquela maquiagem toda com a qual estávamos acostumados escorreu como a lama da catástrofe de Mariana. A verdade? Nunca estivemos perto de dar certo, apenas foi aprimorado o jogo do estica a puxa. As grandes empresas que pertenciam ao governo pagaram a conta e quebraram. Mas quer saber, foi bom, notamos que é hora de privatizar tudo, sem dó. Chega de manter coisas sobre o controle do governo, chega de sustentar o bando inútil da sociedade e seus sindicatos. Privatiza e põe quem trabalha para assistir os que mamam nas tetas do governo se acabando em greves e chororô barato. Consideremos o declínio econômico como o preço do ingresso para esse grande espetáculo.

O brasileiro precisava disso, uma descarga de realidade que nos fizesse notar sobre o lado bonzinho da história ser, na verdade, o parasita a nos consumir.

Não há no mundo povo que aguente tão pacificamente o tanto que nós brasileiros aguentamos. É rasteira de todo lado. Pelo menos está chegando dezembro e em dezembro pelo menos costuma dar praia. Estou pensando em ir para o Rio de Janeiro.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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