O mundo não acaba em dezembro

Por: Greice Scotton Locatelli | 13/12/2019 06:00:50

Existem dois comportamentos igualmente irritantes nesta época do ano: 

- Pessoas que acham que o mundo acabará no dia 31 de dezembro e enlouquecem todos ao redor delas para resolver, em algumas poucas semanas, o que protelaram o ano todo.

- Pessoas que já desistiram de tentar fazer alguma coisa ainda neste ano e começam a protelar tudo para o próximo, mesmo que ainda estejamos na primeira quinzena de dezembro.

Será que é tão difícil assim viver um dia de cada vez, cada um com suas demandas, problemas e alegrias, tentando dar o seu melhor, sem surtar e sem tentar acelerar o tempo ou fazê-lo passar mais devagar? O tempo, aliás, talvez seja o melhor exemplo de que não temos o controle sobre tudo. 

É preciso ter em mente que essa época traz consigo a carga emocional de um ano inteiro de trabalho, de relacionamentos e interações sociais, algumas bem ruins. Muitos de nós – a maioria, talvez – chega em dezembro exausto, precisando descansar o corpo (e a mente), e com a paciência no limite (se é que ainda resta um pouco de paciência). O fato de haver um “fim”, mesmo que simbólico, talvez seja benéfico nesse sentido, como se houvesse uma esperança de que, um dia, aquele ano vai acabar e que só o fato de haver essa “quebra” vale a pena seguir tentando. 




Essa reflexão me fez lembrar de um texto do Frei Jaime Bettega. Uma parte dele dizia o seguinte: “Vivemos imersos num mundo onde tudo deve ser rápido e instantâneo. Seguidamente a agitação nos invade e nos desgastamos tentando dar conta das exigências. Sem contar que a ansiedade tem muitos reféns. A pressa bate à porta de todos. Não escolhe idade. Simplesmente invade o espaço da existência. O que fazer quando os compromissos se avolumam e os desafios se multiplicam? O que fazer quando a única saída é ter que continuar? Pensando bem, a paciência é a melhor aliada das conquistas... Quanto maior a velocidade do mundo, maior deverá ser o exercício da paciência. Uma pessoa pacienciosa participa de muitas alegrias e não sofre de ‘agitação’ interior. Perder a paciência é o mesmo que optar em não viver a serenidade. Nunca se perde somente a paciência. Quem perde a paciência perde muitas outras coisas, principalmente a alegria.”

É justamente isso que deveríamos tentar: superar os desafios impostos pela correria de dezembro sem perder a alegria. Afinal, de que vale passar uma das épocas mais bonitas do ano surtando para desfrutar da alegria apenas na noite de Natal? Se o final do ano é justamente a época em que muitos se sentem contagiados a serem pessoas melhores, de que vale se estressar tanto? Estamos sendo melhores agindo assim?

Muita gente se entusiasma a fazer promessas de início de ano, como se assumir um compromisso consigo mesmo no dia 1º de janeiro valesse mais do que se comprometer em qualquer outro dia. Não existe dia para começar a tentar ser melhor. O dia é hoje, a hora é essa. Não adianta ser gentil e bondoso perto do Natal e passar os outros dias do ano prejudicando os outros. Assim como não adianta prometer ser diferente no Réveillon e depois passar o ano encontrando desculpas para continuar sendo a mesma pessoa.

Talvez seja esse um dos grandes causadores de estresse nessa época: a gente passa o ano todo adiando uma mudança necessária e se frustra ao perceber que estamos de novo perto do Natal e pouca coisa mudou. Pense nisso. Pode ser que no ano que vem, nessa mesma época, sua alma esteja um pouco mais leve.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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