Quanto mais ocupado, menos importante

Por: Felipe Sandrin | 13/12/2019 06:00:28

Gente cansada e sem tempo para nada, sem tempo para si. Gente tão ocupada que não tem tempo nem para sair das próprias enrascadas. Assim procrastinam aquele fim de relacionamento por anos, assim planejam uma vida mais regrada para o ano que vem; assim mentem a si que logo tudo irá se organizar.

Coisa chata essa gente tão fingidamente ocupada, principalmente aqueles que se atrasam: quer um conselho para a sua vida? Desconfie de gente que não cumpre horário. Sério, se eu pudesse lhe dar um conselho objetivo e funcional seria esse: fuja de gente que não cumpre horários. “Te ligo em 10 minutinhos”, levou uma hora? Afasta de ti. “Segunda-feira está marcado hein”, não lhe procurou? Joga para longe. Comecei a fazer isso cinco anos atrás e adivinhem? Glória de vida. Gente descumpridora de horários e promessas são eternos atravancadores de vida.

Só o tempo nos traz essa ciência, essa blindagem para as pessoas falsamente cansadas. Ninguém realmente importante está sempre cansado. Ninguém verdadeiramente inteligente se deixa prender por armadilhas assim. O cansaço que emana do prazer de fazer é eliminado pela autofagia do espírito pulsante, jamais até hoje conheci um verdadeiro campeão que vivesse cansado, porque viver cansado é a proclamação de estar cansado da vida que se leva, uma vida imposta por forças que aquele ser exaurido não controla.


Toda pressão é interna, toda obrigação é a falta de música a alguém que precisa dançar mesmo sem sentir prazer nisso. E essas pessoas que vivem “cansadas e ocupadas” são por fim as que menos produzem: porque as horas sem dormir dedicadas ao que verdadeiramente nos faz vibrar são as melhores horas do nosso dia. O eterno cansado não dorme bem e se não dorme bem é por não sentir merecer tal tranquilidade. O peito estufado de orgulho é o primeiro dos travesseiros, sempre foi.

Repense suas procrastinações, repense quem está na sua vida, reveja sua proximidade com aqueles que não lhe dão nada senão uma presença ao estilo tapa furo: você precisa realmente daquela pessoa ou simplesmente precisa de alguém? Você é um mendigo das relações, uma pomba catando farelos de alguém que também precise de um pouco de atenção? Questione-se.

O mundo carece de reais presenças, as pessoas temem até as pequenas doses de solidão. Solteiros usam o álcool, comprometidos sentem um aperto no peito pensando o motivo de ainda aceitarem aquele pouco. Em uma época onde todos foram levados para a palavra sonhar poucos ainda se esforçam para realizar. Todos querem encontrar: mas e o esforço para chegar lá? Poucos assumem.

Por isso os anos viram e as vidas seguem iguais. Os prazeres duram 15 minutos e o cansaço parece tão presente. Não, não é o exagero do fazer, mas sim a falta de um fazer prazeroso. As pessoas competem para ver quem é mais ocupado e quando não fazem isso estão procurando o filtro perfeito para aquelas fotos felizes de redes sociais.

Pessoas e seus castelos de isopor, basta um mínimo vento de real responsabilidade e tudo se perde dentro das escolhas que tornam as vítimas na verdade cúmplices.  


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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