Menos clichês

Por: Greice Scotton Locatelli | 01/10/2020 06:00:00

Poucas coisas são tão clichês quanto as festas de final de ano. No Natal, tudo de ruim que aconteceu costuma ser esquecido por alguns dias e quase todo mundo vira um ser humano melhor, solidário e sensível. No Ano-Novo, todas as boas energias emanam e as pessoas desejam tudo de melhor, para si e para os outros. Pelo menos até o dia 2 de janeiro.

Depois de semanas insanas e de correria, gente estressada é como se o final do calendário viesse com um botão de “reset”. Tudo passou, é hora de começar de novo, com as baterias recarregadas.

Bacana e necessário esse recomeço, mas há um porém: todos os anos nós vivemos a mesma história, vamos investir mais em nós mesmos, colocar mais limites, fazer exercícios, começar uma dieta, nos dedicar mais ao que gostamos. O ano passa e seguimos com as mesmas atitudes. E, claro, os mesmos resultados. Parece óbvio, mas na realidade do dia a dia a gente acaba esquecendo-se disso: os resultados sempre serão os mesmos se você continuar fazendo a mesma coisa. Ou seja, não adianta querer mudança se você não mudar. 

Reclamamos que o tempo passa rápido demais, mas somos os primeiros a, já na segunda-feira de manhã, torcer para que a sexta-feira chegue logo. Mal terminamos uma comemoração e já estamos pensando na próxima. Aposto que, assim como eu, você já fez ou já ouviu muitos planos para o feriado de Carnaval ainda antes do Revéillon. E, tão logo a badalação do Carnaval terminar, se a Páscoa não ocupar imediatamente os nossos pensamentos as lojas e supermercados darão um jeito de nos lembrar.

E assim passam as horas, os dias, as semanas e os meses. E, mais rápido do que você imagina, estaremos de novo falando “nossa, já é Natal de novo, passou voando” ou a clássica “esse ano não deu, mas ano que vem eu tento de novo”. Tão clichê quanto prometer a si mesmo que vai começar aquela dieta na segunda-feira, depois de comer tudo que viu pela frente no final de semana e ir adiando, segunda após segunda.

Portanto, menos clichês é o que eu mais desejo para 2020.

Que em 2020 não seja necessária a passagem de uma data importante para nos enchermos de energia e vontade e que as promessas deixem de ser apenas parte do ritual e um motivo para nos culparmos durante o ano por não tê-las cumprido. Que aquele espírito generoso, altruísta e bondoso do Natal possa acontecer também em outras épocas do ano. Que fazer o bem – a si mesmo ou aos outros – vire uma rotina. Que tenhamos força para reclamar menos e agir mais, para mudar velhos hábitos, para sonhar novos sonhos – e paciência para viver um dia de cada vez, da melhor maneira que conseguirmos. Que em 2020 a gente aprenda que existem pessoas que não valem a pena, por mais que as amemos. E que colocar os nossos desejos e necessidades em primeiro lugar não é egoísmo, mas questão de saúde mental. 

Erga a cabeça, respire fundo e acredite: 2020 será melhor se você também se esforçar para ser. E, acima de tudo: a maldade existe, mas os bons são maioria, assim como acontecem muito mais coisas felizes do que tristes. Apegue-se a elas para tentar fazer desse novo ano um recomeço realmente efetivo. Ame-se mais, cuide-se mais, dê valor ao que faz você feliz. O resto vem. 
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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