A Terceira Guerra Mundial não precisa de armas

Por: Felipe Sandrin | 01/10/2020 06:00:06

O fictício cenário de uma Terceira Guerra Mundial me faz imaginar quanto durariam as últimas gerações em um campo de batalha. Ao invés de rajadas de metralhadora e granadas, a arma mais mortal seria provavelmente o bullying. Ao invés de tiros, bastariam gritos chamando pessoas de feias e gordas. Caso existissem regimentos femininos, os ataques seriam mortais hinos proclamando que lugar de mulher é na cozinha. Sim, porque não é preciso arma alguma para derrubar a maioria das pessoas hoje: elas são tão frágeis em seu íntimo que palavras doem, palavras ferem, palavras destroem.

Sempre que contemplo essa fragilidade eu me lembro daquela frase “Tempos difíceis fazem pessoas fortes. Pessoas fortes fazem tempos mais fáceis e tempos fáceis fazem pessoas fracas”. É isso: somos e estamos cercados por pessoas fracas, pessoas que argumentam sobre como é difícil viver nos dias atuais com colchões supertecnológicos, telefones que permitem fazer tudo sem sair de casa e micro-ondas que esquenta água em dois minutos enquanto observamos o prato lá dentro girar, feito idiotas.

O mundo sempre foi esse festival de confetes, uma chuva de lágrimas. Mas, sério, olhe pelo que hoje em dia as pessoas choram. Uma rápida passada em qualquer praça de alimentação de shopping e qualquer pessoa mais perceptiva fica estarrecida. Quando foi que as pessoas passaram a se matar tão lentamente? Amamos as artérias entupidas e o açúcar, amamos tanto que a fome no mundo hoje mata muito menos pessoas do que a gordura.

Comemos compulsivamente, fumamos, bebemos... cada um com seu vício na sua própria droga. A droga dos hábitos, a droga das relações tóxicas, a droga da felicidade e seu efeito que dura cada vez menos. Gente compulsiva por ser feliz, mas que acorda todas as manhãs apenas para cumprir aquela agenda depressiva e sem horizontes.

“Palavras machucam”. São essas as pessoas que lutariam em uma guerra? Então você pode dizer que essas pessoas não fariam uma guerra. Ok, vamos nos unir nesse mundo azul e seu faz de conta. Vamos unificar todas as religiões, vamos soltar pombas brancas para decidir as demarcações de territórios. Vamos todos ler a Bíblia, o Alcorão e o Torá.

Vamos, através do amor, decidir sobre Deuses e regimes governamentais. Vamos – todos nós – começar por destruir o capitalismo: queimem seus celulares e levem alguém, um desconhecido, para a casa de vocês. Vamos ser o que pregamos. Ou podemos continuar sendo os mesmos hipócritas de sempre. Nós e nossas análises vazias, especialistas econômicos, peritos antropológicos e nossas soluções mágicas.

Não se preocupem com esse lance de Terceira Guerra Mundial, o ser humano já saiu de moda. Drones e robôs já fazem um trabalho melhor no campo de batalha do que legiões de soldados feitos de pele, músculos e ossos. A era do ser humano entrou em contagem regressiva desde o primeiro momento em que passamos a arar a terra e viver dela. Nossos crimes e pecados são apenas a ignorância e o egoísmo. Ninguém quer salvar o planeta, o ser humano está apenas desesperado por si próprio.

Sempre fomos falhos e fracos, só que ninguém poderia imaginar que a dor de ser assim se tornaria esse câncer. Após tantas lutas, estamos por fim sendo vencidos pela fragilidade de existir. Tempos fáceis como nunca antes vistos e pessoas tão fracas que as farmácias acabaram por se tornar as novas igrejas. 
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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