O chão é seu lugar?

Por: Felipe Sandrin | 24/11/2016 00:00:00

Um pai acompanha o filho, que dá os primeiros passos. Faço então o que talvez eu faça de melhor: observo-os. O garoto tem coragem, o pai o acompanha temeroso. O garoto está mergulhado na nova descoberta, o pai em um orgulho que parece transbordar. O garoto olha e se move para todos os lados, o pai só tem olhos para o filho.

Não demora até o garoto cair, ameaça o choro, o pai o ergue aos braços e sorri, o garoto começa a chorar e o pai tenta distrai-lo, mas não adianta, o choro se intensifica, o pai parece estar preocupado, verifica as mãozinhas da criança, beija-lhe a testa, mas a criança esperneia, grita, a mãe surge do nada: “Solta ele, solta, ele quer ir no chão”. O pai ouve de imediato, a criança estica as perninhas antes mesmo de tocar o chão e quando solta se põe a correr novamente, substituindo o choro pela curiosidade.

Eu finjo que estou escutando música, mas nessa altura já pausei os fones e me concentrei na cena. Tento lembrar dos meus primeiros passos, recordo como meu pai me ensinou a andar de bicicleta, me enganando: “Não vou soltar, não vou soltar, pode ir, estou segurando”. Olho para trás e lá está ele ao longe, sustentando um sorriso de quem conseguiu através do próprio método me ajudar.

Antes mesmo de andar, aprendemos a cair, mas, após tanto tempo em pé, desaprendemos sobre a real importância de cair. A queda é o sustentáculo do verdadeiro desejo, daquele a queimar no fundo de nós. A queda testa quem realmente quer e aqueles que apenas pensam querer. A criança não se arrisca a caminhar por mera programação genética, ela aprende a se sustentar em suas frágeis perninhas, pois almeja o colorido do horizonte, ela quer o que está longe, pois o longe ela nem ainda bem conhece. Que fácil é esticar as mãozinhas tentando agarrar a bola laranja a qual nós, adultos, chamamos de sol. A criança não vê os riscos, ela apenas percebe o que quer e o que ela quer não lhe importa se for impossível, ela desconhece o impossível.

Bem, crescemos, aprendemos sobre o impossível e dali para aprender que nem sempre vale a pena cair é um tapa, logo, quanto maior o risco, menor a chance de tentarmos. Para que levantar se o chão é mais seguro? Para que correr, desviar, saltar quando podemos simplesmente rastejar e simplesmente deixar que os calos que surgem pelo corpo assentem a dor?

Surgem as mentes medrosas, as situações cômodas. Você veste a roupa de banho, vai para a beira do rio, mas fica com medo de entrar na água, pois você sabe que ali dentro é mais gelado. Você não quer mudar seu estado. Estar vivo é colocar a roupa de banho e ir para a beira da água, mas para viver é necessário entrar na água gelada e deixar que você se acostume com sua nova condição.

Tem gente que nunca quer perder o emprego, não quer perder o amor, não quer recomeçar relacionamentos nem se despedir de quem for. Tem gente que tem tanto medo da mudança que prefere continuar bebendo o amargo gosto de uma vida onde o impossível é constante e imutável.

Falta o pai para nos vigiar feito fossemos a criancinha dando os primeiros passos? Ou falta a mãe a gritar: “Põe ele no chão, ele quer caminhar”; o que falta, afinal, para você voltar a ser alguém que olha sem medo para o mundo? Quando foi que você decidiu que o chão era seu lugar?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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