Os “informantes” do WhatsApp

Por: Greice Scotton Locatelli | 17/01/2020 06:00:47

Um acidente, um motorista agonizando. O socorro é acionado e, naquele espaço de minutos entre a ligação e a chegada da ambulância, alguém com o celular na mão, filmando tudo. Mais um “informante do WhatsApp” que provavelmente vai se gabar ao enviar o vídeo para os amigos.

Em outro local, bombeiros socorrem alguém que parece ter sido vítima de atropelamento. Dezenas de pessoas se aglomeram, todas com o celular na mão, e disputam espaço para filmar o atendimento – o que por si só já é desnecessário. Um rapaz chega de bicicleta, para ao lado de um dos socorristas e – como se já não estivesse atrapalhando o suficiente – se desequilibra e cai sobre dois dos bombeiros. Duas cenas igualmente lamentáveis que causam repulsa em quem tem um mínimo de respeito pelas outras pessoas. Duas cenas que circularam amplamente pelo WhatsApp nesta semana.

A primeira aconteceu na última segunda-feira e envolveu uma pessoa da região: o motorista dirigia um caminhão emplacado em Bento Gonçalves quando, por motivos que serão investigados, o veículo começou a se mover sozinho em um posto de combustíveis em Santa Catarina. Ele conseguiu entrar na cabine para tentar acionar os freios, mas acabou tendo a perna amputada quando o caminhão bateu na estrutura do posto. Ele chegou a ser socorrido, mas não resistiu. 
O que essa situação nos mostra? Que o protagonista daquele vídeo de acidente que você recebeu – e provavelmente repassou – pelo WhatsApp pode ser um conhecido seu e que situações assim podem acontecer com qualquer um, a qualquer momento.

Sabe o que é ainda pior do que essa exposição absurda? É que depois que algo assim é divulgado, não há mais controle sobre isso. Não dá para afirmar que vai passar, que daqui a uns dias ninguém vai lembrar. Pode apostar que daqui a uns meses ou até anos algum desavisado vai receber as imagens, achar que são recentes e continuar repassando – aliás, é o que pode ter acontecido com o segundo caso que eu citei, afinal, nem sempre é possível se chegar à verdadeira história por trás de uma imagem on-line. Assim como tem gente que acredita naquelas postagens de que o Facebook doa dinheiro se uma determinada foto tiver um número x de curtidas, há quem dissemine vídeos e fotos de casos passados como se tivessem ocorrido recentemente. 

Enquanto o Poder Judiciário, órgãos de segurança e a própria imprensa tentam se adaptar à nova lei de abuso de autoridade, que prevê, entre outras situações, que pessoas acusadas de algum crime não podem ser expostas publicamente, muita gente comum sofre com os efeitos da falta de respeito justamente no que tende a ser um dos momentos mais delicados da própria vida. Imagine-se no lugar de uma vítima de acidente. Você se sentiria bem sendo filmado nessa situação? Agora imagine que a vítima seja seu pai, sua irmã, seu marido ou esposa, seu filho, sua amiga. Que tal receber essa imagem absurdamente cruel no seu celular e tornar um momento extremamente doloroso ainda pior? 

Há muitas coisas boas na internet e o próprio WhatsApp facilita muito a comunicação, mas quando se trata de falta de respeito, infelizmente existem muitos usuários sem noção que não mereceriam nem serem chamados de “seres humanos”. Afinal, quem consegue filmar alguém agonizando sem se comover ou ter empatia, por mero prazer de compartilhar isso com outras pessoas, não deve ter em si um mínimo de senso de humanidade. 

Ainda temos muito – mas muito – a evoluir quando o assunto é respeito. E os aplicativos de mensagem e o seu suposto anonimato são um capítulo à parte nessa “selva” que se tornou a vida em sociedade.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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