Por que a beleza importa – Roger Scruton

Por: Felipe Sandrin | 17/01/2020 06:00:29

Ninguém precisa ensinar outro alguém sobre a beleza de um pôr do sol: todos nós já nascemos capazes de contemplar um belo final de tarde anilado. A sensação de olhar o mar também naturalmente nos desperta algo de bom. O anoitecer de verão e a brisa suave que faz balançar o verde cheio de vida nas árvores. Quando, afinal, aprendemos sobre essa beleza? Resposta: já nascemos prontos para contemplar o que é belo.

Da eudaimonia de Platão à contemplação da beleza exaltada e aprimorada no eu, por Roger Scruton – falecido nesta semana. Recomendo a você procurar e assistir ao documentário: “Por que a beleza importa?”, uma analogia da escalada do homem rumo ao seu próprio aprimoramento e, consequentemente, à beleza. Nessa obra-prima, Scruton demonstra o real sentido da arte e o motivo de ela não ser subjetiva.

Somos assim, diferentes das outras espécies: aprimoramo-nos no intelecto, aperfeiçoamos incansavelmente aquilo que chamamos de arte e, assim, dessa incansável busca nos arrepiamos aos milhares diante de uma nota de piano, de uma voz que adentra nossa alma, de um quadro que nos hipnotiza, de uma dança que nos faz dançar no próprio silêncio.

Não há, assim, beleza subjetiva, há apenas uma beleza: a do aperfeiçoamento. A das noites não dormidas, do frenesi que exaure até a última gota do artista em sua busca pela eudaimonia. Não há, assim, avaliação subjetiva, pois a arte é facilmente classificada entre a aperfeiçoada e a dada às moscas. Quando vemos arte no estridente barulho de vozes sem ensaio, quando vemos arte em um instrumento regido por mãos preguiçosas, quando vemos arte morta e a nomeamos de moderna, na verdade apenas denunciamos a nossa própria alma cega de qualquer capacidade que distingue seres humanos de animais irracionais.

A arte de ver a beleza em qualquer coisa não é arte, é apenas a consagração medíocre do ser humano desconstruído. A arte pode estar, sim, nos olhos mais evoluídos, olhos que buscam a métrica que outra mente incansavelmente buscou. Eis os verdadeiros olhos prontos a encontrarem a arte: olhos que reconhecem a elevação e a entrega de outros seres humanos para atingir-se aquele estágio.

Não é coincidência o declínio da arte em contraste com o declínio da sociedade. Nem é coincidência a ascensão da arte morta com as almas mortas que agora rogam por remédios e choram a doença do vazio. Carecemos de olhos próximos de ver a real arte, a arte do esforço, da busca pelo melhor que o ser pode fazer. E quando assim carecemos daquilo que nos fortifica em essência também padecemos sem conseguirmos transmitir em palavras as aflições que se multiplicam e consomem.

Nascemos prontos a contemplar o belo e mesmo que não sejamos o artesão a aprimorar belezas necessitamos, sim, ser artesãos de nossos olhos, artistas da própria capacidade de perceber a grandiosidade a qual outros entregaram suas próprias vidas.

A beleza não é rara, mas rara é a capacidade de hoje distinguir a verdadeira beleza do lixo sobre o qual milhões de moscas se aglomeram. Porque a verdadeira arte é um presente raro dado a mãos sujas do mais denso piche. Requer-se o mínimo respeito de lavá-las – não um respeito somente ao presente, mas a si, à própria figura humana. O homem, porém, deixou de lavar as mãos e, da imundice preguiçosa, deu nome de arte a tudo. Por isso também hoje padece sujo, cego e deprimido para as belezas que não mais vê.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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