Reféns do próprio desejo

Por: Greice Scotton Locatelli | 24/01/2020 06:00:21

Há coisas que eu não entendo, mas respeito – ou pelo menos me esforço para tentar respeitar. Há outras que eu não entendo, não respeito e ainda repudio. 

Você tem todo o direito de fazer suas próprias escolhas quanto à sua vida sexual. Mas esse direito termina no exato instante em que você passa a usar crianças para alimentar fantasias. 

Não interessa se você é heterossexual, homossexual ou bissexual, entre tantos outros nomes que hoje configuram quem tomou coragem para lutar pelas próprias escolhas: casos que envolvem abuso infantil ou infantojuvenil são repugnantes e inadmissíveis. Assim como não importa se você é um adolescente descobrindo sua própria sexualidade ou um senhor de meia-idade que de repente se vê excitado com “novinhas” e “novinhos”. É crime. É cruel. Precisa acabar.

Toda semana casos – um mais absurdo do que o outro – surgem. Você ficaria surpreso se soubesse quantos desses ocorrem em Bento Gonçalves. Há leis que não permitem que a imprensa os divulgue, entre as quais o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A boa notícia é que isso evita que comunicadores e jornalistas mal intencionados – pessoas sem noção existem em todas as profissões – exponham essas vítimas a uma falta de dignidade ainda maior. Por outro lado, a não divulgação pode fazer com que a sociedade minimize o impacto de atitudes desse tipo, como se esquecêssemos que o problema existe ou fechássemos os olhos para ele. 

Infelizmente, abusos de crianças não são novidade, acontecem desde sempre. Mas tenho a nítida sensação de que eles têm aumentado – ou agora se tem mais conhecimento em função da velocidade das informações. Pelo que se sabe, cada vez mais pessoas comuns, que podem ser do meu ou do seu círculo de amizade, acabam se envolvendo em crimes desse tipo. Pais de família, senhoras de idade, adolescentes, independentemente da classe social.

Crianças que deveriam estar brincando e se desenvolvendo acabam traumatizadas para o resto da vida. Que se lembrarão do trauma sofrido o tempo todo ou que o tornarão inconsciente, mas que passarão a vida achando que não são merecedoras de algo bom. Adultos fragilizados por algo sobre o qual não tiveram nem chance de ter controle, quando deveriam estar sendo protegidos por outros adultos.
O que realmente acontece na cabeça de uma criança vítima de abuso? Quanta terapia é suficiente para amenizar as sequelas daquele crime? Realmente é possível eliminar aquele sentimento de que tudo de ruim vai ficar se repetindo em um ciclo sem fim? Algum dia, quando for adulta, essa criança vai conseguir superar? A que preço?

Quantos filhos de pais molestadores, de tios “tarados”, de avôs que perderam a noção do certo e do errado existem por aí? Quantas vidas foram ceifadas porque o ser humano não sabe lidar com a própria sexualidade – ou sabe, mas não tem controle sobre os próprios desejos e se torna refém deles? Até quando vamos permitir que nossas crianças sejam abusadas psicológica e fisicamente por adultos que deveriam zelar pelo bem-estar delas? E como perceberemos esse abuso se estivermos ausentes, ocupados demais com a estressante vida moderna e terceirizando praticamente todos os compromissos delas? 

São muitas perguntas e praticamente nenhuma resposta definitiva. Só sei que, mesmo que sejamos impedidos de divulgar pela força da lei, a cada novo caso que tomamos conhecimento a revolta aumenta na mesma proporção que o nojo. Isso tem que acabar.


 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 754
04/03/2020 00:00:48
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA