48 horas sem comer

Por: Felipe Sandrin | 24/01/2020 06:00:43

Semana passada realizei meu primeiro jejum de 48 horas. Sim, 48 horas apenas ingerindo água e café puro. Motivo: sentir-me bem. Resultado: melhor do que o esperado.

Não, não estou aqui encorajando vocês a fazerem o mesmo, até porque, pelo que a ciência aponta, os jejuns mais efetivos são os de 16 e de 24 horas. Decidi estender o processo como um desafio, já que os jejuns de 24 horas se tornaram comuns em minha vida: faz três anos que pelo menos duas vezes por semana eu executo o método.

Por que estou falando sobre isso? Para comentar sobre como o ser humano tende a ser moldado pelas besteiras que escuta sem nem mesmo estudar sobre aquilo. Falo de jejum e as pessoas já perguntam: “Mas você não fica tonto?”. Sim, fiquei na primeira vez que fiz, a tontura foi um efeito psicológico do que eu também acreditava: que nós somos projetados para comer em um espaço curto de horas.  Mas como assim? Nós, seres humanos industrializados, nós que passamos a usar as geladeiras há pouco mais de 100 anos. Nós, seres humanos que por milhões de anos vivemos sobre a inconstância do alimento, sem poder armazená-lo, sem nenhuma certeza do que teríamos no dia seguinte, nós, projetados justamente para procurar e caçar nossa comida, decidimos faz alguns anos que comer de três em três horas é fundamental. De que diabos tiramos essa loucura?

Em 2016 o cientista Yoshinori Ohsumi ganhou o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Sua descoberta: a autofagia através do jejum. Sim, ele precisou provar algo que por milhões de anos se fez nítido como o sol das manhãs: o ser humano precisa dar ao seu corpo um descanso de receber alimento.

Eu sei, eu sei, é nessa hora que um milhão de especialistas montados no unicórnio da indústria alimentícia gritam: “Cuidado, você está prejudicando pessoas e blablablá. Ok, vamos aos números: sódio causa 3 milhões de mortes por ano. Obesidade e doenças cardiovasculares, 11 milhões de mortos por ano. Açúcar, 30 milhões de mortos por ano. E os números crescem assustadoramente.

Comer certo? Nossos antepassados faziam isso? Já culpamos a gordura do porco, os ovos e outras dezenas de hábitos que nossos avós tinham. Por acaso somos mais saudáveis que nossos antepassados?

Emocionalmente esgotados. Crentes no que a indústria nos vende: “Coma e procure uma farmácia”. Repito: Nós, que por milhões de anos aprendemos a viver na escassez do alimento, hoje sentimos tonturinha se não tomarmos café da manhã.
Cuidado com suas crenças. Lembre-se da frase de Paracelso: “A diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Seu corpo e sua mente foram moldados na necessidade. Não é coincidência que justamente hoje – em nosso período de maior fartura quanto ao “ter”– estejamos também no auge das doenças do ser. Geladeiras cheias e cérebros doentes.

Cuidado com as necessidades que lhe vendem.
 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 747
14/02/2020 08:04:07
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA