Poderia ser eu. Poderia ser você.

Por: Greice Scotton Locatelli | 31/01/2020 06:00:10

Uma porta de carro amassada. Um erro que gerou uma discussão que, por sua vez, terminou com uma família dizimada pela intolerância. O caso registrado no último final de semana em Porto Alegre, em que pai, mãe e filho foram mortos em função de uma briga de trânsito, choca pela brutalidade e pela covardia. 

O acusado de matar a tiros Rafael Zanetti Silva, de 46, a esposa dele, Fabiana da Silveira Innocente Silva, de 44, e o filho do casal, Gabriel da Silveira Innocente Silva, de 20, é um homem de 25 anos até então sem antecedentes criminais. Os assassinatos aconteceram na frente do outro filho do casal, de 8 anos de idade, e da namorada de Gabriel – eles também estavam no carro, mas não se feriram. A família voltava de um aniversário quando Rafael perdeu o controle do carro da família em uma estrada de chão e acabou atingindo a caminhonete do suspeito, que estava estacionada. 

Um final trágico para uma briga de trânsito não é muito comum, mas brigas desse tipo acontecem aos montes, em todos os lugares. O que separa a discussão verbal de uma agressão física é o mesmo instante de descontrole que separa a vida e a morte. Basta ter uma arma em mãos e o desfecho se torna possível. 

A questão aqui não é a liberação do porte de arma, mas o descontrole emocional do ser humano. Imagino que não haja elementos para alegar legítima defesa, nem que o tiro foi acidental. Três pessoas foram baleadas e mortas porque uma delas amassou a porta de um carro estacionado. Um descuido que poderia ter sido cometido por mim, por você ou por qualquer outra pessoa que você conheça. Algo a que todos os motoristas estão sujeitos a partir do exato instante em que dão a partida no carro. 

Nada justifica três pessoas mortas por causa de uma colisão. Nada justifica uma família dizimada e o trauma que a criança e a namorada levarão para o resto da vida. Nada justifica a banalidade com que a vida foi tratada não só nesse caso, mas em tantos outros que podem não ter tido o mesmo desfecho, mas são igualmente graves. 

Se você conhece ou já conviveu com alguém que se descontrola facilmente sabe bem o que estou tentando descrever em poucas palavras. É uma sensação de insegurança permanente e uma certeza de que, mais cedo ou mais tarde, aquela bomba-relógio emocional vai explodir. 

Como jornalista, eu luto constantemente contra a sensação de que a maldade tem ganhado a luta contra o bem. Ter conhecimento de certos absurdos que acontecem e detalhes deles impublicáveis reforçam esse sentimento. Não se iluda: esse caso foi em Porto Alegre, mas coisas muito ruins e graves acontecem em todos os lugares, inclusive aqui.

Em que ponto a humanidade se perdeu? Quando foi que deixamos nossa raiva e nossa frustração dominarem nossas atitudes? Onde foi parar o mínimo de respeito pelos outros? O que separa alguém comum, “gente como a gente”, de um assassino a sangue-frio? Por que é tão difícil para algumas pessoas respirar fundo? 

Mais uma vez, são perguntas demais para respostas de menos. A única certeza é que esse tipo de absurdo tem sido cada vez mais comum, infelizmente.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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