Tristeza: o vírus que realmente vai nos matar

Por: Felipe Sandrin | 31/01/2020 06:00:06

Somos alarmistas não pela razão, mas pela precaução. Qualquer doença com um novo nome já causa o caos nas mentes mais despreparadas para a análise dos fatos. Você se lembra do Ebola, da Gripe Suína, Gripe do Frango, a Vaca Louca e a tal de H1N1 que fez milhares de pessoas correrem aos postos de saúde? Pois é, esse amontoado de doenças por fim nunca chegou perto de matar o tanto de gente que simples resfriados já mataram.

Na era da comunicação dinâmica, qualquer vídeo se multiplica exponencialmente, logo os velhinhos mais tecnológicos vão estar te abordando para contar sobre como o tal coronavirus vai liquidar boa parte da humanidade. Sua vó citará algo da Bíblia para proclamar que o dia do juízo final está chegando.

Ontem no shopping encontrei um conhecido tomando refrigerante e comendo batata-frita às três horas da tarde. Com o celular na mão, ele imediatamente me indagou: “Cara, você viu esse vírus aí?”. E eu explanei: “É mais um dos tantos vírus que fazem surgir algum medicamento que enche de dinheiro a indústria farmacêutica”. “Não sei não, tem muita gente morrendo”, argumentou ele. Não fui grosseiro a ponto de falar, mas no meu íntimo foi impossível evitar o pensamento óbvio: “Irmão, esse refrigerante, essa fritura e essa sua barriga enorme são muito mais perigosos do que qualquer vírus lá no outro lado do mundo”.

É clichê nos preocuparmos com o Irã sem nem saber apontar onde diabos fica o Irã no mapa. É mais fácil supor o que está acontecendo na China do que ter a certeza diante do espelho sobre o descaso de você consigo mesmo.

Quer saber um vírus que devia realmente nos preocupar? A tristeza crônica. Não que a tristeza seja avassaladora, ela segue a mesma desde sempre. O problema são os hospedeiros, nós. Fracos e não desenvolvidos para encarar as coisas com lucidez. Iludidos em nossa existência perante o abismo. Compulsão sexual, autoestima claudicante, entretenimento mastigado para pessoas cada vez mais incapazes de pensar.

Sinceramente, a milionésima versão do BBB da Rede Globo é muito mais preocupante do que qualquer vírus surgido nos últimos anos. A pobreza mental que se dissemina é mais tóxica do que qualquer bactéria e suas mutações.

Faz tempo que olhamos para os problemas errados e compartilhamos as preocupações erradas. Impactados pelo desconhecido, por novos nomes de velhas doenças. Enquanto isso, negamos o espelho, negamos as doenças mentais que todos os dias nos jogam a lona.

Anote aí: não seremos extintos por nenhum vírus, pois fica claro que nós somos o vírus que consome a nós mesmos.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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