Quando um avião cai

Por: Felipe Sandrin | 12/02/2016 00:00:00

Em meio a tanta tristeza diante da tragédia desta semana pude ver meu texto ser compartilhado por pessoas como Ana Maria Braga, Gugu Liberato, Romário, Edgar Vivar (Seu Barriga para os brasileiros), Sônia Abrão entre outros. O grande mérito disso é a voz que se traz às pessoas e a sensação de conexão através de um sentimento de dor.
Desde o princípio, quando durante a madrugada soube da queda do avião que levava alguns conhecidos meus, uma série de filmes passou em minha cabeça. Em uma dessas histórias, lembrei-me do zagueiro Thiego, que certa tarde me confidenciou em um dos cafés da tarde sobre um dos momentos mais tristes de sua vida.
O Natal e final de ano se aproximavam, ele não tinha dinheiro para viajar para casa e passar com sua família. Com medo que seus pais abrissem mão da ceia de Natal para pagar a passagem, ele mentiu que precisava ficar na concentração do clube para jogar. Lá, sozinho no dormitório, passou seu Natal junto a um pacote de biscoitos Negresco que havia ganhado de presente da comissão técnica dois dias antes.
Thiego estava atualmente com 30 anos e finalmente havia alcançado a condição de sustentar seus filhos, pais, irmãos e mesmo alguns amigos. A vida parecia finalmente ter se ajeitado para ele.
A maioria das pessoas talvez não saiba, mas há uma gíria bastante usada entre os futebolistas, dizem ‘costas largas’ sobre aquele que repousam muitas vidas, aqueles que possuem a responsabilidade de sustentar financeiramente muita gente. Bem, a imensa maioria destes que estavam nesse trágico voo tinham as costas muito largas. Foi nisso que pensei quando escrevi o texto abaixo, sobre não somente o que somos, mas sobre o quão fundamental somos para outras pessoas.
“Quando um avião cai a gente cai junto. Um avião transporta mais do que vidas, transporta sonhos. É o pai que está indo reencontrar os filhos, é a mãe que está indo buscar o sustento de sua família, são pilotos que planejam estar em casa ao jantar e a aeromoça que leva na bagagem o perfume favorito do namorado.
Quando cai um avião a gente cai junto, pois quantos de nós viram os sonhos começar dentro de um avião. A viagem tão esperada, a assinatura de um contrato, o encontro com alguém que tanto sonhamos estar junto.
Aviões partem rumo a sonhos, e era isso que cabia também neste trágico voo que quase chegou a seu destino. Jogadores que representavam o sonho do menino que quer ser jogador, jogadores que representavam seus familiares, seus torcedores.
Quando um avião cai todos nós caímos juntos. Morrem sonhos, morrem encontros que não vão mais ocorrer, nascem saudades que não vão ser vencidas e que dali por diante vão apenas crescer e se tornar um buraco junto a quem nunca chegou.
Quando um avião cai a dor é compartilhada, pois todos nós somos torcedores, torcemos para quem amamos, torcemos para logo poder dar o abraço, torcemos, pois ninguém sonha sozinho.
Hoje esse humilde time de Santa Catarina tem a maior torcida do mundo, pois quando sonhos despencam do céu a solidariedade é a única camisa que todos vestem, pois essa é a única camisa que nesse momento nos conforta.
Fica meu abraço e sincera dor a familiares e torcedores desse triste voo. O resto é silêncio”. 


É proibida a reprodução, total ou parcial, do texto e de todo o conteúdo sem autorização expressa do Grupo SERRANOSSA.

Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



O SERRANOSSA não se responsabiliza pelas opiniões expressadas nos comentários publicados no portal.



Leia a Edição
IMPRESSA


Edição 731
10/11/2019 08:00:55
Edições Anteriores

Curta o SERRANOSSA