Te vejo no posto

Por: Felipe Sandrin | 02/07/2020 06:00:02

Papos entediantes com pessoas entediantes, o que era para tapar a solidão se transforma na tônica de várias vidas. Assim andamos em um círculo de infantilidade e fingimos ser adultos prontos. Nossos problemas são de adultos, nossas reclamações imitam as de nossos pais, nossos hábitos surgem como um desgaste natural que chega com os compromissos da maturidade: será?

Uma passada rápida pelo posto de gasolina e lá estão, com suas Heinekens e poses adultas. O que será que conversam? Conversas filosóficas que visam o crescimento? Não nos enganemos. Falam sobre as mesmas coisas de sempre, mulheres, comparações com vidas alheias e todas aquelas coisas mais que tangem não chegar a lugar algum.
Haja paciência para essa vida, para esses mesmos assuntos e para esses eternos ciclos infantis. Aprendi cedo sobre como a bebida deixa as pessoas chatas, um pouco mais tarde viria então a entender esse ciclo que se repete nas turmas: competição para ver quem “pega mais”, quem faz mais, quem pode mais. Ciclos tóxicos nos quais nada se aprende, o ego como único protagonista em uma competição sobre quem tem a melhor máscara.

Eu ainda me apavoro quando hoje casualmente caio em uma dessas turmas: é esse o assunto sempre? É esse o apogeu que leva as pessoas a saírem de casa e se encontrarem para beber? Não frequento suficientemente grupos femininos e creio que minha simples presença em um mudaria os rumos da conversa, mas me questiono por vezes: será que os grupos femininos conseguem ser assim tão medíocres quanto são geralmente os dos homens? Não duvido visto que o conteúdo hoje encontrado nas mulheres é quase idêntico em suas limitações quando comparados aos conteúdos que pairam os homens e suas mentes atravancadas.

Ao que deveria ser, as cidades pequenas tenderiam a tecer grupos mais sólidos em seus assuntos, mas não, pelo contrário, as turmas de cidade pequena são ainda mais uníssonas em pensamentos e tradições, estabelecendo-se assim um ciclo de manias e assuntos ainda mais limitados e acachapantes.

Parece-me assustador que essas são as mentes que irão tocar a cidade, jovens filhos de empresários que vão herdar as grandes empresas, as quais os pais construíram com tanto suor. Podemos questionar aqui se esses homens do passado por acaso dominavam a intelectualidade no pensar: não, mas, mais importante, dominavam a do agir. Coisa que a atual geração ainda mais raramente faz.

Somos herdeiros que não sabemos herdar. Dinamites ambulantes em nossos hábitos corrosivos. Andamos mal acompanhados, nada temos como sagrado e nossos objetivos são medidos por uma competição em conseguirmos ser mais do que outros de nossa própria turma. Aos sábados bebemos em postos e praticamos algum esporte como justificativa para ao fim bebermos mais um pouco e não termos de ir para casa muito cedo.

Assim se prolifera o vírus desta constante infantilidade. Nosso dinheiro, nossos carros e nossas roupas servem para disfarçar a latente verdade que nos assola: emocionalmente qualquer sopro de consciência nos derruba.
Não há crime em se temer o futuro, mas é inadmissível que em um mundo tão fácil de se viver tenhamos nos tornado uma simples parte neste imbecil coletivo. 
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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