Azedume

Por: Greice Scotton Locatelli | 14/02/2020 06:00:03

Será que existe alguma moral por trás de um comportamento que na minha época chamavam de “cricri” – algo equivalente aos “mimizentos” de hoje em dia? Essa é uma dúvida que de tempos em tempos surge, especialmente em quem acompanha repercussão de postagens em redes sociais.

São tantos casos que é até difícil lembrar dos mais emblemáticos, mas, com um pouco de esforço, os exemplos surgem. Alguns são mais graves, com tons de acusação (geralmente infundada), outros servem simplesmente para provar que aquela pessoa sofre de “azedume instantâneo”. 

O clima é um desses assuntos. Há algumas semanas, postamos fotos de uma camada de gelo que cobriu a vegetação em Santa Catarina, em pleno verão. Notícia verídica, com imagens reais. Logo alguém comentou que aquilo era impossível de ter acontecido. O mesmo ocorreu com um vídeo que mostrava o céu bem carregado depois de várias semanas de estiagem, com direito a pacote completo (nuvens negras, ventania e raios). Em resumo: parecia que o mundo iria acabar, de tão carregado que o céu ficou. A legenda era “Vem temporal por aí”. Poucos minutos depois, alguém comentou: “Informação errada. Não é temporal, é chuva!”. 

Perdão! Nossa bola de cristal estava desligada no momento da postagem e por pura ingenuidade nós imaginamos que tanto estardalhaço no clima pudesse indicar um temporal. Mas vamos tomar cuidado para que da próxima vez usemos a palavra correta para descrever o fenômeno climático que se aproxima com exatidão – estou sendo irônica ao extremo, caso alguém não tenha entendido o recado.

Em outro exemplo, esse não tão recente, noticiamos a morte de uma pessoa em um acidente. Um dos comentários foi “Teve o que mereceu, ninguém mandou correr”. Mais empatia, gente, por favor! Primeiro, porque é muito difícil apurar com exatidão o que causou um acidente. Segundo, porque nenhum de nós está livre de cometer um erro desse tipo. Terceiro, porque a vítima tem família e amigos que estão de luto e não precisam desse tipo de desrespeito, ainda mais em um momento tão difícil quanto esse.

Seguidamente nós, jornalistas, nos deparamos com críticas à determinada notícia ou ao conteúdo dela sem qualquer argumento. E isso vai muito além do “mimimi”: muitas vezes o internauta ofende outras pessoas ou instituições sem o mínimo de fundamento. Parece que alguém tomar a iniciativa é tão ruim quanto a inércia. Especulações ou “achismos” que não servem para nada a não ser alimentar esse azedume coletivo que, por sua vez, anula todo o contexto positivo daquele fato.

Em ano eleitoral, o azedume ganha um companheiro inseparável: o generalismo. Qualquer pessoa envolvida com política que tente se manifestar logo é taxada de aproveitadora, mentirosa, hipócrita e tem suas ações (positivas ou negativas) condenadas. Só que pessoas bem e mal-intencionadas existem em todos os segmentos e profissões e, por mais que política desperte mais ódios e paixões do que as demais, é preciso – de novo – ter em mente o respeito. Caso contrário, críticas construtivas se perdem nesse mar de revolta infundada.

Por causa de comportamentos desse tipo, muitas ideias inspiradoras caem no esquecimento. Primeiro, porque muitas das pessoas que fariam sugestões bacanas ficam inseguras em opinar, afinal, nunca se sabe quando vai ser alvo dos “mimizentos” de plantão. Segundo, porque muitos dos que poderiam ser inspirados desistem das redes sociais justamente por isso.

É impossível agradar a todos, mas um desagrado generalizado é demais. A discussão saudável e a crítica baseada em argumentos são bacanas e devem ser incentivadas. Mas sempre com respeito, acima de tudo. Reclamar menos – de tudo – é um dos segredos para uma vida mais leve e feliz. E isso inclui opiniões nas redes sociais.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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