A turistificação das emoções

Por: Felipe Sandrin | 14/02/2020 06:00:01

Escrevo este texto de dentro de um avião, estou neste exato momento retornando de uma turnê incrível pelo nordeste, teatro lotado, filas enormes com pessoas que sacrificam seu tempo apenas para tirarem uma foto. Entre sorrisos e abraços ficava me questionando: quando foi que tudo ficou tão conectado? Fazia mais de dez anos que não ia ao encontro do povo nordestino, mas é como se eu estivesse ali todo mês. É esse o poder da internet? Essas são as tão buscadas conexões?

Faz poucos meses também que estive em Paris, a cidade mais decepcionante que já visitei. Uma montoeira de ratos, um trânsito insuportável, gente mal humorada para todos os lados, sujeira, mau cheiro e gente jogada pela rua: sim, eu estou falando exatamente de Paris. O mais incrível? É como se já tivesse estado lá, então novamente: será esse um dos lados ruins das tais conexões? Ver tantas vezes um lugar em vídeos e fotos que todo esse conteúdo nos rouba parte da experiência.

O mundo já não parece tão grande, onde há um sinal de wi-fi há celulares a se conectarem. Tudo em nossas mãos o tempo todo. Mas, se as diferentes culturas cabem nesse universo e se mesclam, quanto tempo conseguem permanecer culturas autênticas? Falar com um motorista de Uber no nordeste se tornou algo idêntico a conversar com um em Florianópolis e Bento Gonçalves. Pequenas variações linguísticas, mas basta entrarmos em assuntos como política, Brasil e mundo, pronto, as fronteiras derretem e parece apenas tudo mais do mesmo. Difícil um acréscimo de ideias quando todas as ideias parecem surgir dessa mesma fonte: a internet.

Cruzamos o Brasil, o cenário muda, a quantidade de lixo na rua e os odores se intensificam, mas os pensamentos parecem conectados à mesma matriz. Dá até para esquecer que estamos a mais de 4 mil quilômetros de nosso local de origem. Assim a informação, os hábitos e as burrices se propagam. Para o mal e para o bem, lá estamos nós colocando os pés pela primeira vez em lugares que nem nos parecem tão desconhecidos assim.

A turistificação da vida, lugares marcados, roteiros prontos e opiniões que divergem dentro de um mesmo pequeno balde. Viajamos para que? Relaxar? Quase impossível. Conhecer algo novo? Como, se não conseguimos parar de bater fotos e fazer vídeos? Passamos a olhar mais o novo mundo velho à nossa volta através de uma tela do que pelos próprios olhos.
Diziam os poetas que viajar era trocar a roupa da alma, mas transformamos a experiência em produto e hoje viajamos mais porque o mundo nos disse que é bom e todos estão viajando do que propriamente por vivenciarmos uma experiência de crescimento.

Raros se tornaram aqueles momentos em que entramos em um avião e nos jogamos em algo novo. Hoje tudo está pré-agendado, cada passo, cada lugar e cada esquina por se evitar. O mundo se conectou em facilidades, mas será que estamos, de fato, mais conectados às novas experiências quando as encontramos? Todas essas facilidades, mas ficou tão difícil aquele arrepio que nos fazia ter a certeza de vivermos um momento único.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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