Esse grito preso na garganta

Por: Felipe Sandrin | 12/09/2016 00:00:00

Grêmio campeão, não chorei nem gritei, não senti a euforia me tomar e nem me arrependi de ter passado para outro meu ingresso para a final. Senti sim uma satisfação por ver uma torcida inteira merecidamente feliz. Sei que vivemos tempos difíceis, que se agarrar a isolados momentos felizes é tão necessário quanto se agarrar à TV torcendo para que algum político desonesto seja preso.
Mas para onde foi minha paixão pelo futebol? Adormeceu talvez em alguma ilegalidade que presenciei, na falsidade dos políticos que também dominaram o esporte. A consciência tem dessas: por vezes ela afasta você de ilusões para lhe fazer agarrar a outras. Minha ilusão atual? Talvez a ideia de que lendo os livros certos eu possa me desprender da mediocridade que vivemos em todos os setores de nossa precária sociedade.
Vivi alguns lindos momentos com o futebol, mas talvez tenha desaprendido isso com os próprios principais atores do meio, os jogadores: “Felipe, tu acha mesmo que neguinho ama o clube?” Disse-me um conhecido jogador que todo ano beija uma camisa diferente. É trabalho, simples trabalho que nós, torcedores, tratamos como religião. Por quê? Bem provável que seja por precisarmos mesmo.
Sentado no sofá, em frente à TV pensei se tinha feito a escolha certa em não ir para Porto Alegre aproveitando o ingresso que ganhei. Senti de imediato como que um cansaço nas pernas, recordei as noites sem dormir seguindo o Grêmio pelo Uruguai, Argentina, Equador, entre outros lugares que jurei nunca mais pisar. Talvez eu só esteja velho mesmo e o futebol continue lindamente apaixonante.
Vibrei em silêncio por ver um ciclo de tristeza se fechar, vibrei como quem vê a felicidade de outro pela janelinha de um ônibus que passa em frente à Marquês da Sapucaí em pleno Carnaval. Pensei nos tempos em que minha satisfação era ver os times que jogassem em casa perder, sobre como eu achava engraçado os jejuns de títulos. De fato algo em mim mudou, já não acho engraçado gente chorando a derrota do time, acho mais bonito gente comemorando a vitória, mesmo que seja um rival. Penso que é mais fácil conviver com gente alegre e afastar os que se tornam chatos. Ocorreu tudo como o esperado, após 15 anos sem ver meu time ganhar um título quando este dia chegou nada em mim mudou, segui centrado, não eufórico nem lastimado. Lembrei também dos prêmios que costumam esperar os jogadores no vestiário, muitas direções para dar aquela animada no grupo dão um “dinheiro” extra após a partida, coisa aí de R$ 30 mil, R$ 40 mil em papel para os atletas irem para casa querendo mais para o ano seguinte.
Segui então minha rotina de final de noite, fui para o banheiro escovar os dentes, abri a gaveta para pegar a escova e nada de dinheiro nela, apenas pasta de dente. Olhei-me no espelho pensando nas tarefas do dia seguinte, se teria sol, se deveria ir comer novamente uma torta de limão ou provar um novo sabor. 
A vida segue, um dia de cada vez, aprendi isso comemorando e perdendo jogos. Aprendi isso vendo aviões caírem, mães chorarem e torcedores sorrirem. A vida segue. Eis algo que me faz por vezes realmente comemorar, independente de tudo a vida segue.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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