Ninguém é esse carnaval todo

Por: Felipe Sandrin | 21/02/2020 06:00:06

Te destruíram por dentro? Dane-se. Você não vai ser a última pessoa a ter tido o coração quebrado. Dói, dói muito, mas dói para todo mundo. Alguns choram, criam olheiras, passam meses no limbo de uma vida sem sentido. Alguns vão para a balada, enchem a cara, voltam para casa no vazio e no dia seguinte tentam repetir tudo apenas para amenizar essa dor que consome.

É duro? É. Mas você não pode se isolar nessa dor, não pode pensar que essa dor é só sua, não, porque essa dor é do mundo. A gente aposta errado e sente como se tivesse perdido tudo. A gente investe nosso melhor, nossos anos, nosso orgulho e nossa esperança de futuro... e puft! Quebramos a cara. Todos nós. Anota aí: todos nós.

Não acredite naqueles que disfarçam bem, não ache que baladas são celeiros de gente feliz, não ache que o tanto de drogas que precisamos consumir reflete a alegria geral das pessoas à sua volta. Álcool, música alta, perfumes caros e maquiagens exageradas... é tudo para esconder o sofrimento. Não creia nos falsos carnavais, no colorido das roupas e nos sorrisos fadigados daqueles que precisam extravasar desesperados pelo alívio de uma dor incurável.

Você chora, você sofre, você perde a esperança? Que bom, são os anticorpos do teu sentimento lutando para te erguer. Esse desespero e desilusão é a febre querendo expulsar tua doença, tua carência, tua dependência que acaba tornando tuas relações essa angustiante caixinha de surpresas desagradáveis. Essa coisa incomoda no teu peito a te roubar noites de sono e que ao acordar te faz evitar olhar muito no espelho. Cada dose de angústia, cada novo aperto no peito, tudo isso é assim tão estranho, pois nada disso mora em ti, tudo isso precisa sair de seu corpo, sua mente anseia pelo dia em que você proclamará a verdade para a mudança.

Não se engane, mãos estão dadas ao desespero e para cada disfarce há um velho salto nesse abismo de um mundo mais veloz do que podemos lidar, com relações mais desgastadas do que podemos admitir.

Em algum momento você vai ter de acordar, vai precisar perceber que as pancadas que a vida dá são apenas para aprendermos a levantar sozinhos. Quer ficar no chão? Vai encontrar apenas gente que rasteja, os coitadinhos e as serpentes, os que estão por ser devorados e aqueles que devoram. Quer quem está de pé? Quer a mão de alguém que caminhe contigo? Então se levante sozinha.

Chega de ser a muleta de alguém e fazer de outros essa muleta. Chega de sufocar em si essa meia verdade sobre o monumento que você nem é. Pare de contemplar-se como estivesse pronta a receber esse presente que a maioria das pessoas deseja. O que você tem realmente de diferente? Quais os grandes atributos que as pessoas à sua volta não possuem e lhe fazem de fato receber mais da vida do que a maioria delas?

Não, você não é uma perdedora, você só tem péssimos hábitos. Então primeiro torne-se tudo o que sonha encontrar, depois, por fim, alguém há de te encontrar.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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