Liga ou desliga?

Por: Felipe Sandrin | 16/12/2016 00:00:00

É impressionante o peso de um único dia ao qual nos dedicamos a ouvir as notícias políticas do Brasil. Entre o emaranhado dos poderes, parece impossível decidir sobre quem são os mocinhos e bandidos. Mesmo no que temos convicção, fica uma sensação de castelo que pode ruir. Tempos insanos de um Brasil que há muito acumulava absurdos e agora se vê contemplar no espelho o monstro insano da realidade.
Para constatar o caos, é necessário também conhecer a purificação. Estou há alguns dias quase totalmente desligado das notícias políticas, por vezes sou sequestrado por matérias televisivas, ou links na página do Facebook, mas nem minha disposição em clicar é a mesma. Ao que se deve a mudança? Cansaço, desistência ou estou apenas dando um tempo da TNT política? Não sei, o que sinto é que tal distância desse tumultuado mundo sujo tem me permitido produzir muito mais daquilo que talvez eu faça de mais útil: escrever sobre coisas boas.
É indescritível o carinho que tenho recebido nos últimos meses diante do crescimento do público que tem acesso aos meus trabalhos. Digo indescritível pois é difícil saber o que se sente quando centenas de pessoas que você nem conhece mandam mensagens tão pessoais contando sobre suas vidas, seus problemas, medos e lutas diárias. As mensagens chegam em um tom tão profundo que me sinto mal desperdiçando meu tempo com manchetes negativas de uma política que em todos esses anos trouxe apenas tristeza para nosso povo.
Estou tentando focar no que faço realmente diferença. Isso serve para todos nós. Certamente tem pessoas contando com você, no seu trabalho, na sua família. Você pode ser bom vendendo, organizando a casa, aconselhando ou colhendo ervas para ajudar um vizinho doente. Há coisas boas que aprendemos com a vida, talvez seja hora de sermos um instrumento positivo em meio ao caos que ronda toda a vizinhança.
O ano se aproxima de seu fim. 2016 não foi fácil para os sensatos. Não que outros anos tenham sido melhores no cenário social e político, mas 2016 foi o ano que não deu afagos, foi porrada para todo lado, a mais forte delas mostrou que no Brasil em que crescemos não se pode mais viver: ou mudamos em definitivo ou mergulharemos no pior cenário dos últimos 100 anos. Esse despertar é sempre violento, o “vai ou racha” mostra quanto uma sociedade de milhões pode ser frágil.
Merecemos um descanso, mas como a coisa não virá lá de Brasília, então que tal encontrarmos esse nosso local de paz? Pelo menos agora, nesses últimos dias do ano, foque em algo que você faz realmente bem. Que seja costurar, pintar, dançar, cortar a grama ou decorar árvores para o Natal. Pense em algo que você faz e rende elogios e foque nisso. Dê um descanso a si, pois 2017 promete ser uma bagunça.
Precisamos também aprender a nos desligar. Não dá para fugir desse mundo paranoico, estamos todos viciados e contaminados, porém, podemos pelo menos tentar pausar nossa busca pela loucura que nos cerca. Vamos engarrafar as críticas, pensar antes de falar, silenciar em vez de extravasar a raiva. Vamos dar uma folga ao “eu” que somos durante o ano. Se comprometa a entrar em 2017 aguentando firme, mas mude de canal até lá, seja alguém diferente do que você foi o ano inteiro. Ninguém é de aço e mesmo a mudança precisa por vezes parar e tomar novo fôlego.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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