Exercício de imaginação

Por: Greice Scotton Locatelli | 28/02/2020 06:00:54

Durante o horário de visita da casa de repouso, presto atenção aos olhares de quem ali reside. Alguns tristes, cabisbaixos, outros enigmáticos, alguns que não perdem a alegria nem quando a idade leva a dignidade embora. De repente, eu me pego pensando em como aquelas pessoas viveram. Tiveram filhos e netos? Nunca encontraram um amor? Perderam noites de sono por causa das dificuldades da vida? Foram realmente bons em algo a ponto de fazer sucesso na profissão? E um instante depois bate uma tristeza. Seja lá qual for a história, todos acabaram, por fim, no mesmo lugar. Vidas marcadas pelo sofrimento se misturando a outras que não foram nem um pouco desafiadoras. 
Mas quem realmente sabe o que se passou com o outro?

A idade chega para todo mundo, mas nem sempre traz maturidade e discernimento. Há adolescentes que se tornam adultos, mas que mantém a mentalidade imatura típica de quem ainda não viveu o suficiente para assumir a responsabilidade pelos próprios atos. Da mesma forma que existem adultos que viram idosos com espíritos tão jovens que enganam quem convive com eles. E há os que morrem em vida. Pessoas que desistiram de tentar encontrar um mínimo de felicidade e que apenas sobrevivem, dia após dia, independentemente da idade.

Ampliemos um pouco nosso leque de visão, para além das paredes da casa de repouso. Olhe agora para a pessoa que estiver mais perto de você. Pode ser um familiar, um colega de trabalho, um desconhecido no ônibus. Quando você olha para ela, o que realmente vê? Aposto que seu primeiro impulso é julgá-la, principalmente pela aparência. É natural, a maioria de nós faz isso. As roupas que usamos, a forma como nos vestimos, o jeito como conversamos, tudo denuncia traços na nossa personalidade ou do nosso estilo de vida. 

Mas tente ver além da aparência: imagine como é a rotina dessa pessoa. Ela trabalha? Terá tido perdas significativas? Alguém da família com sérios problemas de saúde? Ela própria, talvez? Ou será que a vida não a castigou tanto assim? Terá ela encontrado um grande amor? Filhos? Animal de estimação? 

Óbvio que é apenas um exercício de imaginação visto que as respostas para todas essas perguntas provavelmente nunca serão respondidas. Mas é uma boa forma de praticar empatia, de ver os outros como seres tão imperfeitos e cheios de qualidades e defeitos como nós, lutando todos os dias contra os próprios fantasmas. Sim, não importa o quão a vida do outro pareça perfeita – ainda mais em tempos de redes sociais que só mostram um lado da realidade – essa pessoa tem problemas assim como eu e você. 

Meu pensamento é interrompido por uma das simpáticas senhoras que tomam sol no jardim da casa de repouso. “Eu preciso ir ao banheiro daqui a pouco. Tenho que me programar 15 minutos antes para dar tempo de chegar [risos]. Vai se acostumando, minha ‘filha’, um dia será você nesse trem”. Tem razão, dona Pierina. Um dia, serei eu.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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