Não seja um velhinho “nutella”

Por: Felipe Sandrin | 28/02/2020 06:00:26

É fácil criticar os jovens e sua energia exacerbada que caminha para a destruição a testar limites, mas, por vezes, precisamos criticar as gerações anteriores, essas que diante à tecnologia se infantilizam em atos de grosseria e falta de noções básicas. Surge assim um novo chato: aquele que entra em algum assunto e saca o celular do bolso para lhe mostrar vídeos e fotos.

Não, eu não quero ver as trezentas fotos que sua filha enviou da Irlanda, não quero ler o texto que você recebeu falando de uma conspiração mundial que dominará o globo. Por favor, não precisa colocar os óculos para procurar algo que alguém – que você nem lembra – lhe enviou por esse tal ‘uatisapi’. E, por favor, não precisa dar play naquele vídeo com volume alto em meio ao shopping como se só existisse você no mundo.

Eu aprendi a conviver com crianças choronas e pais que não sabem impor limites, aliás, a praça de alimentação inteira consegue olhar com certa piedade para a mãe sem nenhum controle do filho que recompensa o pequeno diabinho com jogos de celular e Coca-Cola apenas para ela ter um pouco de paz. Agora, complicado mesmo é gente de mais idade sem noção, senhores e senhoras no auge da experiência, com a vivência a seu favor, mas que insistentemente perdem a noção e fazem da tecnologia um produto irritante a invadir o espaço de outros.

A juventude é um inferno em sua energia, mas a velhice pode ser um inferno em sua infantil forma de ver o novo. De um lado, a criança que testa o limite de pais frágeis. Do outro, os senhores e seus aparelhos celulares no último volume. Eis um mundo que lhe invade por todos os lados, que ludibria o sentido de alguns fazendo com que estes esqueçam até da ótima educação pela qual foram regidos durante toda a vida.

E se já era difícil andar por aí desviando daqueles menos providos de músculos e funções motoras, hoje então é necessário lidar com as paradas bruscas daqueles com mais idade que resolvem consultar seus aparelhos celulares. É, sei que não é fácil lidar com a idade que chega, nem com a dos outros e muito menos com a nossa. Por exemplo, este texto é um daqueles que evidenciam o quão rabugento já sou.

Enfim, resta-me colher exemplos e fazer esse exercício mental: se um dia for pai, não ser frouxo e sem rédeas como tantos por aí. Se chegar à velhice, lembrar que ter a tecnologia em mãos não significa dominá-la com tal aptidão para esquecer que existe um mundo à minha volta.

Não é que apenas fiquemos chatos, mas, de fato, muitas pessoas são sem noção mesmo. Lembre-se disso na próxima vez que for sacar o celular do bolso para mostrar coisas da sua família ou que recebeu num grupo de WhatsApp: ninguém dá a mínima para isso. No máximo, as pessoas estão sendo educadas enquanto sorriem e fingem interesse.

Não seja esse novo tipo de chato, o velhinho “nutella”. Prefira aquele à moda antiga, o que reclama de tudo e que lembra nostalgicamente de épocas nas quais tudo era supostamente melhor. Seja um chato das antigas, esse pelo menos os jovens temiam e respeitavam.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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