Quando morre uma criança

Por: Greice Scotton Locatelli | 03/06/2020 06:00:42

Quando morre uma criança, um pouco da nossa alegria acaba, nossa esperança se torna infundada. Com ela são sepultados sonhos, risos e momentos especiais. 

Quando morre uma criança, morre também a expectativa de ir à escola, a imaginação sem limites, as gargalhadas, as travessuras, os contos de fadas e as histórias de super-heróis. Com uma criança que morre se vai o brilho no olhar, a curiosidade tão peculiar, a alegria de descobrir a vida como um enorme livro de páginas em branco, afoitas por serem preenchidas. A morte de uma criança traz amargura, solidão, mágoa – e não seríamos humanos se assim não fosse. 

Quando morre uma criança, parte com ela a magia das datas especiais, a energia das manhãs, as intermináveis histórias e perguntas sem fim. Morrem os filmes que ela assistiria centenas de vezes, ficam à mercê da poeira os livros que deveriam ter aguçado a imaginação, perdem a graça os brinquedos que tanta diversão trariam. Naninhas e fantasias perdem sua função, ursos e bonecas viram objetos-símbolo de tristeza. A bola murcha, a bicicleta enferruja, o balanço perde a cor.

O silêncio que a morte de uma criança causa é o mais consternador dos silêncios. Dói. Dilacera. Machuca. É um silêncio que grita o mais assustador dos gritos: aquele que diz que não há nada que possamos fazer a não ser lamentar por uma vida inocente perdida, seja em que circunstância for.

Uma mãe e um pai de luto não são apenas duas pessoas desoladas: são dezenas, centenas. Porque quando morre uma criança, o luto se multiplica, ultrapassa as fronteiras de casa. São avós, tios, irmãos, dindos, professores, colegas, amigos, vizinhos e até desconhecidos a lamentar em um uníssono “não acredito”. Uma criança morta comove, deprime, revolta – e não há como ser diferente. 

Não importa a idade ou a causa. A dor é a mesma, faz com que percamos a noção do tempo e do espaço, nem que seja por apenas alguns segundos. É o tipo de notícia “soco no estômago” também para nós, tão treinados para prezar pela objetividade necessária em um texto jornalístico. Mas não nesse caso. Noticiar a morte de uma criança também nos emociona: a gente chora por dentro – e às vezes por fora. É inevitável.

A morte de alguém inocente, que não teve tempo suficiente para fazer escolhas (boas ou ruins), é a pior das tragédias. Abala, impressiona, entristece, magoa. É como se nos rasgasse por dentro – um rasgo que nada pode consertar, nem mesmo o tão aclamado tempo, quando uma criança do nosso convívio se vai. 

Quando uma criança morre, morre com ela um pouco de cada um de nós. Morrem – antes mesmo de existir – as lembranças de um futuro que poderia ter sido, mas não foi. Um futuro encerrado abruptamente, sem aviso, sem perdão, sem sentido. 

A morte de uma criança vai contra a naturalidade da vida, extrapola todos os limites da tolerância. Não existe morte de criança que não seja uma tragédia – todas o são, sem exceção.
 


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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