Onde, afinal, é o mundo real?

Por: Felipe Sandrin | 27/11/2015 00:00:00

Sigo na maratona do novo livro, bem verdade, um pouco assustado. A gente só sabe onde chegou quando finalmente abre mão de se conter.  São mais de trezentos já enviados e cem deles tiveram como destino um território além deste estado.

Sensação louca essa de imaginar o “Eu vi a rua envelhecer” em cidades nas quais eu nunca estive, casas em que eu nunca estarei, em criados-mudos fazendo companhia a objetos tão pessoais. Sinto que a criatura ultrapassou o criador e me assusta o fato de perceber a mim mesmo como um formador de opinião. Afinal, isso é bom?

Eu, que tanto critico mídias sociais, hoje vejo meu trabalho totalmente entrelaçado a essa capacidade de o mundo interagir. É superficial, com prazo de validade, visualizado e muitas vezes não respondido, mas, ainda assim, é o que me permitiu chegar talvez onde nunca chegaria. Afinal, como poderia ser lido no Acre, Maranhão, Alagoas e no menor município em extensão territorial do Brasil, Santa Cruz de Minas?

Penso em quantos auditórios seriam necessários para acomodar cinco mil pessoas, afinal, esse é o número mínimo que qualquer vídeo meu atinge nas redes sociais. E de onde vêm os mil seguidores que surgem todo mês? Dezessete mil pessoas no Facebook, gente de todos os cantos. É ótimo ser lido, receber mensagens e perceber que, uma vez publicado algo, você simplesmente precisa esperar e deixar que seu conteúdo voe para os mais variados públicos.

É traiçoeira a mídia social, uma gaiola dourada de onde poucos desejam sair. É a mais bela gaiola já construída pelo ser humano. Lá, informamos ao mundo sobre como nos sentimos, onde estamos, o que comemos e desejamos. Através de um simples curtir, entregamos ao mundo nossa privacidade.

Mas, não se enganem achando que é fácil analisar a situação das mídias sociais. São poucos os filósofos que se arriscam sobre o futuro de nossa era virtual, isso porque ainda não sabemos os reais benefícios dela. E, afinal, se o mundo antigo fosse tão bom, se as brincadeiras tão melhores e os envolvimentos tão mais saudáveis, por que então chegamos a este momento? Há uma grande chance de aquela nostalgia dos mais antigos ser somente isso, uma nostalgia.

Alegra-me imensamente o fato de o livro estar indo tão longe, mas me assusta a dependência que criei por este mundo prático da internet. É a maior facilidade com a qual o homem já teve contato e a experiência histórica mostra que não lidamos tão bem com esse tipo de facilidade, pois, se tudo é fácil, em que eu jogarei a culpa para justificar aflições?

O Google é meu pastor e nada me faltará. Hoje, qualquer pessoa em posse de um smartphone possui infinitas vezes mais informações do que a polícia secreta de Hitler possuía. O sentido da busca tem migrado para as respostas de internet, dadas, em geral, por pessoas simples, como eu, hoje, perigosamente formadoras de opinião.

Impossível definir o efeito de tudo isso sobre nossas mentes, mas o fato de tantos não conseguirem mais se imaginar longe de tudo isso demonstra o quão vulneráveis somos diante das nossas próprias criações. Novamente, a criatura a superar o criador.

Dois mundos, o real e o virtual; mas, qual é qual? O tempo segue inalterado, o dia tem as mesmas 24 horas, seis das quais roubadas pelo meu sono. Falta-me tempo para viver em tantos lugares ao mesmo tempo. E o pior: eu gosto cada vez mais disso.

A internet vendeu milhares de meus livros, levou minha música, meus textos e as minhas mais diversas opiniões a lugares nos quais nunca imaginei chegar. Porém, esse é o problema de seguir caminhando: nunca finalmente chegar.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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