Um adendo ao que se tem

Por: Felipe Sandrin | 13/03/2020 06:00:04

Queremos os ventos da aventura, desbravar mares, encarar tempestades e proclamar o encontro com os significados da existência. E, na tragédia que nos acompanha, o que queremos nos encontra.

Um vento de paixão, um encontro arrebatador, corações jogados ao mar, sufoco rondando sobre as pedras pontiagudas de um querer o que nos parece tudo. Somos nós sensivelmente movidos por esses ventos que ora chegam, ora somem deixando-nos ao desespero das águas imóveis. Assim navegamos e, cegos pela aventura do horizonte desconhecido, nos esquecemos de olhar para baixo, do que nos permite a aventura. Acabamos nos esquecendo do único chão sólido que nos mantém e daqueles que nos são o barco.

Quanto desespero, quanta paixonite agude idealizada como amor. Uma mensagem visualizada e não respondida, um convite que não se realizou. Uma transa que no dia seguinte não dá oi e tantas promessas quebradas. Desespero emergindo deste profundo oceano de ansiedade.

Assim, levados por essa ânsia de aventura, nós nos esquecemos do que nos sustenta sobre o mar turbulento da vida: o amor do pai e da mãe, o amor daqueles que nos olham verdadeiramente nos olhos há tantos anos e dizem “eu sempre estarei com você”. Tão focados nas aventuras e nem olhamos as entranhas do que nos faz verdadeiramente vivos. Tão desesperados por receber amor e nos esquecemos de dar amor a quem de fato mais nos ama.

Quanto desespero cabe na esquina daquele beijo que você não esqueceu? E quanta dor cabe no casamento que não cumpriu as promessas feitas no altar? Focados sobre quem chegou e partiu não vemos as únicas partidas que realmente importam: aquelas com gosto de nunca mais daqueles que verdadeiramente sempre estiveram ao nosso lado.
Por isso o gosto de saudade se confunde tanto com o do arrependimento. Por isso diante da dor deste “nunca mais” surge um amargor do que não se viveu plenamente. Olhe só, logo você, que tanto procurou o amor e tanto se iludiu achando tê-lo encontrado, tinha, sim, o amor ao seu lado. Nunca reparou no olhar de sua mãe a lhe aconselhar? E no jeito duro de seu pai falando que aquilo não daria certo? Pois é, era amor disfarçado de preocupação, de desaprovação, de aviso sobre como a vida é envolta de ondas que chegam e nos arrebentam. Logo nós, que tanto procurávamos em ventos uivantes o amor, o tínhamos sob os pés: eram nosso pilar, nosso barquinho a nos permitir navegar nessa desesperada e cega aventura.

E quanta gente hoje pode apenas arrepender-se do que se negou a ver? Quantos que pescaram sardinhas estando sobre a baleia, quantos que pronunciaram hinos a quem nada merecia e calaram-se diante daqueles que tudo faziam?
Escutam-se os lamentos nas noites de verão, quando o mar acalma e os ventos se escondem. Esses lamentos são os pensamentos daqueles que tinham ao lado algo pelo que lutar, algo que verdadeiramente se valia valorizar, mas cegos pela ânsia de algum novo descobrir nem perceberam.

Hoje lamentam não lembrar direito o rosto da mãe e do pai. Lamentam o que não viveram enquanto tanto valorizavam ventos passageiros que logo distante estariam.

Por quê? Por que não valorizamos o barquinho que nos sustenta? Por que essa ânsia por darmos tudo aos viajantes que chegam apenas carregados de promessas? E por que tanto demoramos a aprender que na vida o que faz falta de verdade não é quem um dia chega, mas quem sempre esteve aí.
 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]




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