Há um vírus por trás do vírus

Por: Felipe Sandrin | 20/03/2020 15:52:38

Crises deveriam servir para, além de tudo, “limpar” o mercado, mas mais uma vez não será o que veremos. Desde a crise de 2008, o mundo vem acompanhando um crescimento econômico cheio de buracos, juros baixos de governos que motivam o empréstimo de dinheiro o tempo todo. Banqueiros e seus trilhões arrecadados sobre a pele de outros, péssimos gerentes para péssimas empresas. Querem um exemplo? A empresa Uber no ano passado fechou com prejuízo de 8,5 bilhões de dólares. E sabe a tão queridinha Netflix? 15 bilhões de dólares em prejuízo só em 2019. Como, então, sobrevivem? Na maioria das vezes com empréstimos governamentais. Sim, o dinheiro do povo financia empresas privadas e seus prejuízos.

Que o Estado é péssimo para gerir dinheiro, isso todo mundo sabe, afinal o Estado não gera um mísero real, cada centavo usado por governos é extraído em forma de impostos. Ou seja: nós suamos e eles nos sugam. De consolo poderiam nos servir as crises, caso essas trouxessem rostos ao público, mas não é o que ocorre. Este ano de 2020 poderia ficar conhecido como o ano em que o mercado quebrou trazendo a face dos péssimos administradores, mas, por fim, se tornará o ano do Coronavírus. Observem os noticiários, leiam sobre as grandes empresas que estão pedindo ajuda de governos, deem uma olhada no tamanho da dívida que essas empresas acumularam e concluam se esse vírus não surgiu como uma dádiva aqueles que por mais de uma década exploraram o sistema e as populações.

Pânico e medo diante de um amanhã incerto. Mais devastadora que essa praga são as pragas sistêmicas que, ano após ano, ganham uma nova munição para seguirem quebrando mercados e arrancando o sangue dos trabalhadores no mundo todo. Enquanto isso, lá na China comunista, temos uma amostragem clara do que tantos aqui no Brasil lutam para implementar: um socialismo covarde focado em eliminar qualquer pensamento contrário aos deles.

Não, esse não é o maior vírus das últimas décadas. A grande doença que nos consome é invisível e pretende se manter silenciosa. Assim presenciaremos mais um ano jogados ao medo da ruína, famílias trabalhadoras expostas à incerteza que colapsa a saúde mental e financeira. Assim, mais uma vez, veremos os amigos dos reis serem salvos, e os grandes culpados fugirem, deixando um rastro ocultado por uma suposta doença surgida do acaso.

É a jogada perfeita, tão perfeita que é impossível não pensarmos sobre até onde vão as coincidências. Um mercado prestes a quebrar devido a uma centena de mãos sujas encontrando o álibi perfeito para não existirem mais tais culpados.

Um dia olharemos para trás e tudo que lembraremos é sobre como um vírus causou todos esses transtornos e mortes, esqueceremos então daqueles que verdadeiramente nos enterravam. E, assim, contaremos como vencemos um agente infeccioso invisível sem perceber que na verdade nunca nem chegamos perto de nossos verdadeiros inimigos.


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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