2016: um ano incrível

Por: Felipe Sandrin | 22/12/2016 00:00:00

O ser humano ama a ideia do recomeço, o recomeçar remete para as novas chances, para a mudança mediante o que nos parece ter dado errado. Daqui uns dias, quando o relógio marcar 23h59, muitas pessoas vão novamente mergulhar em um sentimento de novas chances, de mudanças que ganham força e podem desenhar novos começos. O início de um novo dia, um novo mês, um novo ano. Muitas das religiões e culturas se apoiam nos ciclos para trazer a perspectiva de que podemos, sim, redesenhar o que já parece traçado.
Sempre que lhe surgir essa ideia atrelada de datas comemorativas e mudanças, lembre-se: mudanças de ano não significam mudanças de personalidades e atitudes. Essa muleta de desesperados serve apenas para tentar manter as peças andando sobre o mesmo tabuleiro com a sensação de jogarem um novo jogo.
Pessoas não mudam diante do ano que muda, pessoas não melhoram porque fogos explodem no céu, ondas são puladas e roupas brancas dominam vitrines. Se anos mudassem atitudes, estaríamos festejando a mudança número 2017 dos seres que aqui habitam. Abra o jornal em janeiro do ano que vem e logicamente você verá as mesmas coisas que sempre viu.
Todos os anos me questionam como posso não ver graça em festas de final de ano. É engraçado, pois também me pergunto como mentes que se dizem sãs podem tão falsamente “brindar a mudança”. Comemore ter sobrevivido, comemore ver aquele parente chato que você só precisará aguentar algumas horas, comemore a sensação de que pelo menos você tem saúde, mas, a menos que você tenha menos de 10 anos de idade, evite comemorar “a mudança”.
Termino o ano com um texto aparentemente amargo, mas, já que muitos gostam de falar de ciclos, posso dizer que 2016 foi o melhor ano da minha vida. Todos objetivos traçados foram realizados, tudo que eu esperava de melhor pra 2017 já ocorreu em 2016. Foi um ano incrível para mim, principalmente por ter percebido que, independentemente do que eu pense, faça e queira, o mundo segue sendo o mesmo.
Às vezes é isso que mais nos falta, uma noção sensata baseada na história de que o mundo realmente não gira em torno de nós, nem do que pensamos e julgamos certo ou errado. Você pode ser socialista, capitalista, muçulmano, cristão ou ateu, nada disso faz de você alguém mais relevante do que outro alguém que há cinco mil anos atrás morreu de apendicite enquanto tentava plantar trigo.
Anos não mudam seus resultados, calendários novos não fazem novos dias, apenas atitudes podem mudar algo. Algo não deu certo em 2016 para você? Então aí está um ótimo desejo para o próximo ano: fazer direito o que no ano passado você preferiu deixar errado.
Muitas pessoas vão ler o título desse texto e pensar: “está é doido, como assim incrível? Foi um ano horrível”. Bem, esse texto é para essas pessoas que acreditam que um ano pode ser bom ou ruim. A representatividade do tempo é composta pelos rumos que nós fazemos. Meu ano de 2016 foi incrível, se o seu foi ruim a culpa é só sua.
Bem, no mais, feliz 2017. Um ano que será igual a todos os outros, ótimo para aqueles que acreditam traçar os próprios caminhos, péssimo para tantos outros que acreditam nos novos rumos de uma humanidade mais velha que o “pa vê ou pá cume”.

 


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: [email protected]



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