Estamos todos no mesmo barco

Por: Greice Scotton Locatelli | 27/03/2020 09:56:05

O telefone toca. É a dona Vera, angustiada. Trabalhadora do ramo da alimentação, não pôde deixar de trabalhar e não sabe o que fazer com os três filhos, que tiveram as aulas suspensas. A solução, temporária é arriscada, é deixar o mais velho, de 8 anos, cuidando dos caçulas, de 5 e 3. A maior preocupação dela é que eles se machuquem ou corram para a rua, já que a família mora no bairro Juventude, às margens da BR-470. Viúva, ela não tem família na cidade nem uma rede de apoio com quem possa deixar o trio, que está a mil nesses dias atípicos.

O receio de Natália é outro. A empresa em que ela trabalha permitiu que os funcionários fizessem home office. A do marido deu férias coletivas para os colaboradores. Isso permite que ambos fiquem seguros dentro de casa. Mas ela não sabe o que fazer com os pais, bem idosos e debilitados, que moram do outro lado da cidade. Ela é filha única e, como todo trabalhador que tem o dinheiro contado, não teve condições de antecipar compras para deixar a geladeira dela própria nem s dos pais abastecidas. Segunda-feira precisou fazer compras: pegou R$ 200 que o casal economizou desde o início do ano – inicialmente para as férias do ano que vem – e gastou no mercado. 

João Manuel pergunta se as novas medidas anunciadas pela Corsan – de não cortar o abastecimento das famílias que estiverem inadimplentes nos próximos dois meses – incluem isenção de juros ou multa. Ele mora com a esposa e os dois filhos em um porão alugado. Autônomo (ele é motorista de aplicativo), não sabe o que fazer porque com a cidade parada não tem demanda. “Eu tenho tentado, mas não tem passageiros. É um desespero total”, relata, emocionado.

Letícia teve seu quadro de depressão agravado pelo isolamento. Desempregada há meses, ela foi uma das que na última semana contrariou as orientações e saiu de casa. Pegou dois ônibus para chegar ao Sine, no centro, onde encontrou dezenas de outras pessoas na mesma situação que ela. Saiu de lá com a mesma sensação de sempre: por mais que tente, ela não tem qualificação suficiente para ser selecionada em nenhuma das empresas que estão com vagas abertas. Ao voltar para casa, uma minúscula estrutura de madeira improvisada que divide com a mãe acamada e dois irmãos, abriu a geladeira na esperança de ter algo além de uma garrafa de água. Não havia. 

Jerusa é professora, casada, dois filhos criados, classe média. Ativa, estava acostumada a não ficar uma noite sequer em casa. Ginástica, natação, trabalho voluntário, curso de alemão. A agenda cheia deu lugar à solidão quando ela se viu obrigada a ficar em casa, como todo mundo e cancelar uma sonhada viagem a Paris. Justo ela, que sempre bradou aos quatro ventos o que faria quando tivesse tempo livre, agora tem todo tempo do mundo e está sucumbindo ao tédio. No fundo, eram só palavras da boca para fora.

Maria Flávia é enfermeira. Adiou por tempo indeterminado os planos para se aposentar quando começaram a chegar notícias de que o Coronavírus seria uma preocupação global, ainda no início do ano. Para ela não tem tempo ruim. “Vamos superar isso, com cuidado, paciência e fé”, pensa todas as manhãs enquanto espera a carona que a levará para o trabalho. “Claro que eu me preocupo com o vírus, mas o medo é o que tem me tirado o sono. As pessoas não entendem que, apesar da recomendação, algumas ainda precisam sair de casa”. Maria Flávia ajuda pessoas desde sempre e agora também quer ser ajudada: “Eu preciso trabalhar e não quero ser linchada só porque estou na rua. Não tenho escolha”.

Não interessa como ou quanto. A pandemia de Coronavírus afeta todos. E cabe a cada um de nós fazer a sua parte para evitar a disseminação do vírus como puder, seja ficando em casa, seja trabalhando para que os outros tenham o que comer, seja para atender pacientes, seja para manter a cidade limpa. Estamos todos no mesmo barco e vamos superar tudo isso juntos. Mas, infelizmente, em certas horas é cada um por si.


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Greice Scotton Locatelli

Greice Scotton Locatelli

 



Editora-chefe do Grupo SERRANOSSA desde 2010, é formada em Comunicação Social - Habilitação Jornalismo, pela Unisinos, e tem na Língua Portuguesa e na Fotografia duas de suas maiores paixões.




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