Feitos de gelatina

Por: Felipe Sandrin | 27/03/2020 10:02:58

O olhar não consegue enganar. Pelo ar paira um peso que denuncia aqueles mais aflitos. O que diriam aqueles que algumas décadas atrás vivenciaram guerras? Como aqueles que carregaram armas e marcharam rumo à matança olhariam para estes de agora?

Conhecidos desabam, pais de família, homens consolidados em suas posições e vistos como pilares da sociedade. Mas como, em tão poucos dias, puderam se deixar abalar tanto? Não, a questão aqui não é econômica, não diz respeito à crise que irá se agravar, mas, sim, a um sentimento de impotência diante de um mundo que parece acabar. “Eu nunca imaginei que viveria para ver isso, ruas vazias, parece o fim do mundo”. O quê? Sério? Essa é a sua força psicológica? Cara, sério, como você conseguiu sobreviver essas décadas e chegar até aqui?

Quando a rotina desaba, os novos rostos surgem, maçantes, cansados de não fazer nada. Há algumas cervejas e vinhos na geladeira, mas nada disso cura essa inquietante sensação de um planeta que caminha para seu fim. Nas colônias, a evidência de doenças psicológicas é ainda maior, surge uma nova profissão não remunerada: os fiscais de quarentena. Gente tão doente que acredita estar fazendo algum bem enquanto finge entender o complexo momento que nem os mais premiados estudiosos parecem entender.

Quinze dias em casa e lá se vão os estoques de ansiolíticos. Em alguns países, os índices de suicídio já crescem 12%. Como diabos chegamos nesse psicológico feito de gelatina? Se as crianças desabam em escolas quando ganham um apelido, agora vemos pais e mães desabarem em casa diante um simples não saber. É, pelo jeito as frutas não caem longe do pé: fragilidade herdada e repassada.

O mundo se tornou essa coisinha morna – em alguns lugares muito mais do que em outros. Conhece quem fica bufando em filas? Alguém que diante de um minuto desperdiçado faz esse parecer o mais importante? Pois é: mundo fraco que permite ficarmos nervosos com coisas banais.

Se tem algo que essa crise revelou é isso: diante de uma guerra, se precisássemos escolher apenas uma pessoa para ir conosco... estaríamos lascados. Psicológicos fracos, mentes envolvidas e consumidas por qualquer névoa de mudança.
Nunca pensei que fosse assim tão fácil desabar pessoas. Nunca imaginei que mentes aparentemente tão sólidas pudessem se consumir tão facilmente nesse mundo moldado a calça jeans e ternos de linho, nesse mundo de vinhos importados e cervejas com tampinhas de rosca. Ah, esse mundinho tão frágil com seus seres feitos de geleia!

Imagine só se um dia acontecer outra grande guerra. Imagine só o dia que surgir uma doença que realmente mate parte da população. Imagine só o dia que essas pessoas, ao invés de ficarem em suas casas enormes com ar-condicionado, tiverem de dormir em pedras. Bem, tomara esse dia nunca chegue... mas, imagine só se chegar. Quantos será que sobreviveriam à primeira semana?


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Felipe Sandrin

Felipe Sandrin

 



Músico e escritor, é colunista do SERRANOSSA desde 2006. Tem três livros lançados: Amor Imortal (2008), Eu vi a rua envelhecer – coletânea de crônicas publicadas no SERRANOSSA (2015) e Sempre Haverá Junho (2017), além dos álbuns Lados Separados (2011) e Adeus Astronautas (2016), com canções próprias. Contato: felipesandrin@hotmail.com




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